Sunday, April 23, 2006
Saturday, April 01, 2006
"Jean-Luke... I'm your father!"
Friday, March 24, 2006
The one where Cinderela gets high
E puta meu, só com meiota e já estava über high naquela noite. Agora tanto fazia. Mais meia hora e começaria a ouvir tudo quanto é tipo de merda em óffi (na certa um sósia vocal do Armandinho, aquele babaca) com ratos falantes que a aconselhariam a partir por aí antes que sua alma se resolvesse por sair do corpo para dar um telefonema. Enfim, um ponto eles tinham, podia ser uma boa e smack smack, distribuiu dois beijinhos nas amigas e cambaleou um pouco pelas ruas do reinado até o primeiro beco, onde topou com a hippie doidona da Rapunzelda. Resolveu parar pra levar um papinho.
As duas se olharam, trinta segundos de silêncio, o que não é nada para um viciado (“o tempo não existe, no duro!”). Rapunzelda fez uma pausa significativa, passou a mão pelas longas madeixas e acendeu um baseadinho da paz. Respirou fundo e, com a mão pousada no ombro da garota, confessou-lhe uma cousa que só ela e o Grilo Fumante sabiam: Cinderela era uma personagem de ficção.
A jovem partiu desabalada com a notícia e, como se não bastasse, sentindo os efeitos do ácido martelando em cada pedacinho do seu corpo, como se todas as suas células tivessem topado um campeonato de ula-ula tirolês e estivessem agora a caminho da finalíssima, Honolulu, 2006. Sentiu vontade de morrer. Sentiu vontade de matar. Engarrafada na via das dúvidas, decidiu-se por voltar e dar um tapa no bagulho de Rapunzelda; aquela história precisava ser esclarecida, enfim. Agora. Seu mundo estava destruído, sua verdade, nua (ou essa era ela?) e pensando bem, seria a realidade tão terrível? Não, não se você estivesse apropriadamente vestida para ela. Coisa que não estava.
(...) foda-se, foda-me, sentiu de vontade de perder a linha, o novelo, de perder um tapete voador inteiro para esquecer aquela merda. Um, dois tragos mais tarde e deu adieu adieu para a hippie chapada. Decidiu partir pra sempre: hasta la vista, baby, era isso. Precisava encontrar o Sentido da Vida, contado com bonequinhos de Playmobil, trilha sonora by Wander Wildner e o caralho. Entrou no bar no melhor estilo faroeste e mirou sua primeira vítima à moda Robocop, tu tu tu, macho, tu tu tu, 28, tu tu tu, no balcão, o coitado: cabelos desgrenhados, olhar de louco e um enorme cartaz que dizia CHIFRADO, basicamente. Mas negou colo e fumo, o puto. Não gostava da fruta.
- Viado do tipo não-mulher? Mesmo?
- Ha, ha. É, er, desconfio que sim.
- Nem aos domingos?
Sentiu vontade de mandar enfiar a porra do cartaz num lugar onde o sol não bate mas refreou, papo manso. Conversaram a noite toda, se deram bem. Decidiram fazer um fedelho (dividiriam meio-a-meio) na noite seguinte e o primeiro choro seria o código para o ataque das Panteras. Hoje ele se chama Armandinho, aquele babaca. A cara do pai.
Wednesday, March 15, 2006
Uma nação contra Hitler

2006 foi um ano politicamente correto para a Academia. Uma mulher contra Hitler, o strudel alemão que disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro contra o vencedor Tsotsi e o supramencionado Paradise now, foi só um dos vários nomes da noite que vestiram a camisa política nos corredores do Teatro Kodak. De Clooney a Clooney, com o regular Syriana e o ótimo Boa noite e boa sorte, ao (pálido) debate racial em Crash e à bandeira levantada do orgulho gay em Capote e Brokeback Mountain, o clima em geral era favorável à débâcle do festival de ortodoxia usualmente oferecido pelo então conservador júri da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Pois quanto à amazing disgrace que tematizou a politizada cerimônia desse ano, o longa-metragem de Marc Rothemund se encaixa impecavelmente no perfil. A partir dos cinco últimos dias da vida de Sophie Scholl (Julie Jentsch), uma jovem alemã que foi presa, condenada e julgada à morte junto ao irmão e um amigo durante o breve período por sua participação em um movimento de resistência ao Terceiro Reich, o diretor traz de volta às telas toda a amargura de um país que até hoje luta para fazer as pazes com, ou melhor, pelo seu passado.
Frente de oposição formada por estudantes em plena II Guerra Mundial, o Weisse Rose – ou Rosa Branca – sucumbiu às garras da águia nazista com o episódio o qual o filme se propõe a (re)contar, em que os irmãos Scholl são apreendidos na Universidade de Munique após espalharem por suas instalações cartas que questionavam “a brilhante estratégia de nosso führer” em persistir numa guerra cujo final da estória, predito por capítulos sangrentos como Stalingrado, era a derrota iminente. Jogados 1943 – ano em que a sorte do conflito começou a contornar em prol dos Aliados -, e à luz da história já revista, a avaliação dos jovens parece óbvia. O problema é que era mesmo. O que ainda assim, como bem se sabe, não impediu, às custas de milhões de vidas – de ambos os lados -, que o Terceiro Reich só pontuasse o final dessa guerra dois anos mais tarde, com uma bala para Hitler e uma segunda derrota em menos de trinta anos para a Alemanha.
A questão de Rothemund, no entanto, parece estar mais no presente do que no passado. Com a nuvem do trauma nacional-socialista dissipando-se pouco a pouco com o passar dos anos, volta e meia uma nova leva de produções na cinematografia mundial chega, com direito a choque elétrico e o caralho, para enfim apertar a mão que balançou o berço nazista da Europa de meados do século XX. Uma mulher contra Hitler, nesse sentido, é mais uma peça de expiação da culpa por parte da juventude contemporânea alemã.
Com passaporte em mãos, o desejo é uno: sair por fim e de uma vez por todas do purgatório o qual a velha guarda alemã, o vovô Fritz, toda uma nação hipnotizada pela oratória fascista de Hitler reservou às futuras gerações para uma estada forçada. Com um peso do tamanho do holocausto para escusar de seus ombros, a tarefa não é fácil. É colossal. Filmes como A queda e mesmo Os produtores, refilmagem em Broadway style de Primavera para Hitler (uma parceria clássica de Mel Brooks e Zero Mostel) parecem, contudo, dispostos a comprar essa briga. Cenas como o führer chorando como menininha ou como destaque em avenida na gay parade nacional-socialista são evidências notáveis nessa direção. Os tempos, definitivamente, estão mudando.
Enfim, nada carregado com o ar denso, prolongaaaaado que se esperaria respirar numa atmosfera tão pesada quanto a que envolve uma nação ainda despreparada a sentar-se no divã e alijar os traumas deixados pelos seus antepassados – o mesmo sangue! correndo pelas suas veias! - ao invés de ir ao confessionário penitenciar-se por um pecado que não cometou. Pois esse parece ser o pique da nova geração alemã. Seja ao retratar um Hitler humanizado n’A queda, seja ao insistir em bater na mesma tecla para escrever uma estória onde nem todas as personagens resumiram a personificação do Mal maiúsculo e que algumas, imagine!, ousaram inclusive se opôr ao regime hitlerista, a idéia em pauta não é perdoar, mas olhar para trás pela perspectiva dos vencidos, no lugar apenas daquela dos vencedores.
Assim, a ordem do dia, cada vez mais, é pôr em quarentena a mais contagiosa necessidade de autoflagelo para provar que só chora pelo leite derramado quem gosta de coalhada. É claro que os nazistas eram malvadões. Ninguém está aqui para contrariar isso, muito menos Marc Rothemund: em contrapartida ao Hitler de Bruno Ganz, que conseguia encaixar em sua agenda alguns espasmos de humanidade entre pular fogueira com Nero e o chá das cinco com o Capeta, o nazista de Uma mulher contra Hitler veste uma carapuça feita à medida exata para acentuar a vilania esperada do mau elemento que é. Mostra os dentes, dá chilique, bate os pés. Um verdadeiro show de intransigência, enfim.
O que não deixa de ser, nesse aspecto, o ponto fraco do filme. Sophie Scholl representa uma espécie de Joana D’Arc sabor chucrute, chegando a recrutar nada menos que a justiça divina para alterar o pino de rotação do Eixo do Mal. “Podem nos julgar agora, mas amanhã serão vocês a estarem no nosso lugar,” como profetiza a candidata à Miss Mártir 1943. Uma pena. Sem esse quinhão de maniqueísmo, a história só teria a ganhar.
Mas como carro-chefe da película, o mérito, ou pelo menos o mote do filme é mostrar que não, senhor, nem toda a Alemanha cruzou os braços e foi jogar bridge enquanto Hitler brincava de dominar o mundo. Hannah Arendt já disse que, muito provavelmente, estando no mesmo lugar e hora errados, qualquer ser humano consentiria com a via-crúcis nazista com a mesma naturalidade que um Hans e uma Frau o fizeram durante o Terceiro Reich. Ou seja, pensar em um gene germânico vestindo a camisa do Mal, estipulando a vocação de um povo à vilania, é simplesmente ridículo. Da mesma forma, e é aqui onde o trabalho de Marc Rothemund esbarra com sua raison d’être, trazer à tona a história do Rosa Branca é uma forma de oferecer evidências ao tribunal histórico que mesmo o “abjeto povo alemão” postou, na medida do possível e do impossível, resistência aos planos megalomaníacos de seu führer.
Se o filme começa arejando ares de thriller político, com cenas tensas onde Sophie e o irmão colocam a operação em ação numa verdadeira batalha contra o tempo, essa adrenalina inicial – de sutil parentesco hollywoodiano - logo se esvai para dar espaço a uma sempre bem vinda trama psicológica, quando Sophie é interrogada por Robert Mohr (Gerald Alexander Held), integrante da polícia de Adolf Hitler.
Mas sem duplos twists carpados mirabolantes no roteiro, que fique claro. E nem precisa. O diálogo travado entre a jovem idealista e o oficial nazista é, na verdade, e acima de tudo, um embate ideológico. E uma guerra antes de tudo travada em palavras, artilharia tão ou mais mortífera que as bombas que devastaram a Europa daqueles dias. Amparada por sólida atuação da dupla de atores, estas são indubitavelmente as melhores cenas do filme, capazes de levar qualquer espectador a desejar entrar ele mesmo na tela e sacudir Mohr pelo colarinho até que sua máscara de inflexibilidade caia película abaixo (embora a oscilação do interrogador quanto à validade do ideário nazista seja evidenciada em mais de uma parte do filme – o que não o impede, entretanto, de assegurar que o próximo passo do trio de militantes seja em direção ao corredor da morte).
Sophie Scholl, durante todo o interrogatório, é uma amazona. Mente e manipula com facilidade notável em defesa de sua causa e também para defender a identidade dos outros componentes do movimento de resistência pacífica. (O único momento em que se permite fraquejar é quando está sozinha em frente ao espelho, após tornar-se nítido que todas suas tentativas de driblar a inteligência nazista se revelaram vãs – uma das cenas mais reveladoras do filme.) No resto do tempo, sua dissimulação esculpi um caráter que, mais que uma montanha, é uma verdadeira cordilheira de gelo. Fria, inabalável, obstinada. Tudo em prol daquele tipo de paixão que só um idealista old school nutre por uma causa.
A força da personagem, todavia, deve a maior parte do crédito à atuação de sua atriz. E nesse sentido, com pouco ou nenhum tropeço, a conclusão é invariavelmente a mesma para o lado de cá da platéia: Julia Jentsch, mais conhecida pela sua participação no oba-oba juvenil de Hans Weingartner, Edukators (uma espécie de bíblia cinematográfica para a Che generation dos tempos coevos), amadureceu. Com louvor. Sua interpretação para Sophie Scholl é tão sólida quanto as convicções da personagem, tornando a fé do espectador no idealismo da jovem quase que uma obrigação.
Uma mulher contra Hitler tem suas falhas, e não são poucas. A câmera é um tanto burocrática. Os sentimentos do espectador, por ora manipulados. Não duvide ainda que alguns irão questionar se a escolha de enfocar a história de Sophie somente, ao invés dos três militantes executados naquela noite de fevereiro de 1943, pode carregar algo de apelo feminista franqueado, visto como os atos de bravura realizados por Sophie não são mais instigantes do que, por exemplo, aqueles de seu irmão. Mas não faz mal. Pesando os prós e os contras do filme, a balança é simpática à causa de Rothemund.
E se o sacrifício de Sophie Scholl foi em vão? Não a esquecer, mas deixá-la para trás junto com todo o panorama que levou à morte da militante é justamente o divórcio entre passado e presente pleiteado por uma nação que legou a mais maldita de todas as heranças. A incompatibilidade de gênios entre a atual Alemanha e aquela de Adolf Hitler é, afinal, a idéia entalada na garganta de toda uma geração.
Friday, February 24, 2006
É impressão minha
Ai, ai, ai, fofo. Monta o meu que eu monto o seu, vai.
Sunday, February 19, 2006
Dois filhos de Friedricho
Friday, February 17, 2006
Nove canções
:: Black Saint and the Sinner Lady, The – Charles Mingus
:: Candyland – Cocorosie
:: Jackie – Scott Walker
:: Limehouse Blues – Django Reinhardt
:: Sing Sing Sing – Benny Goodman
:: Suicide is Painless – Manic Street Preachers
:: Take Your Carriage and Shove It – Belle & Sebastian
:: Unza Unza Time – Emir Kusturica and the No Smoking Band
Tuesday, February 14, 2006
Dá-lhe uma, dá-lhe duas, dá-lhe vinte
Sunday, February 12, 2006
Junebug me
Mas, antes de vilanizar uns personagens em prol das redenção de outros, Morrison conduz uma narrativa que não dá brecha no sentido de insistir em lembrar ao espectador que, somados erros e acertos, histórias e estórias, culpas e palavras, todos os personagens são exatamente a única cousa que lhes cabe ser: humanos. Demasiadamente humanos. Assim, ainda que a função protagonista de Embeth e a atuação hors concours de Amy garantam os holofotes a Madeleine e Ashley, nenhuma sombra passa ao largo da dupla Morrison e McLachlan: a tensão (não tão) latente entre irmãos, os encontros e desencontros de George com suas raízes sulistas, a dificuldade de comunicar-se com aqueles que ama por parte do patriarca Eugene (Scott Wilson) e o misto de medo e sentimento de inferioridade que pincelam a recepção pouco calorosa de Peg (Celia Weston) à chegada da esposa cosmopolita - uma menina tão bonita... tão inteligente! the enemy! a outra! –, a nova inquilina do coração de seu filho.
Acidez e cinismo suficientes para justificar o label indie presentes em uma narrativa que revela mais vocação para acertos do que para erros; nada com sérios riscos de fazer bonito nas bilheterias, enfim. Pois ao flanar pela última edição do Festival do Rio sem atrair maiores atenções, longe de provocar comoção popular, o abre-alas de Phil Morrison na direção cumpre à risca o que parece ser o apelo máximo de seu seleto público – o de ser uma pérola cinematográfica que a cultura underground talvez prefira esconder dentro de sua ostra, às escondidas do mais vulgar neanderthal hollywoodiano (sempre a posto para descascar o esmalte indie que cinge a obra com sua perversa acetona comercial). Bobagem. Junebug é nocaute na certa com luva de pelica e merece um público maior do que meia sala lotada em sessão quase única de festival cinematográfico.
Sunday, February 05, 2006
Sobre meiasplvs e outras mentiras honestas
This is my lie, lay me yoursUm lindo dia para pensar em coisas menos belas e mais sujas? A fim de pegar jacaré no mar de lama da sem-blogracice nossa de todo dia? À procura de um manancial wit para regar suas madrugadas de domingo? Senhoras e senhores do meu respeitáaaaavel público, mais um, mais um, mais um sim, sinhô! Mais um post sobre o mais do mesmo como nunca se viu antes! Pois foi seguindo os preceitos de Lavoisier, a velha raposa safada que dizia que nada se cria quando tudo pode se transformar – verité absolute adotada por todo rodízio de pizza – que decidi apertar o repeat para recoroar com uma salva de bifas aquela carpintaria dos caras-de-pau also known as “causa blogueira”.
Soon-to-be (de)formada em jornalismo, não é de espantar que seja – ou esteja a caminho de ser, ainda que com um péssimo senso de direção (o narcoléptico que adormece while sleeping, o jogador que comemora o gol contra) - catedrática na arte de escrever absolutamente nada sobre relativamente tudo. Mas sou passilarga. Vou além sendo aquém. E o que é um blog, o meu, o seu, o nosso blog senão um disse-que-disse ad eternum da completa falta do que dizer? Não compreendo lhufas daquilo que estou blábeando metade do tempo. Nos outros 45 minutos do jogo, tenho uma remota idéia – acho que é sobre queijo.
Inicialmente, vim aqui para escrever sobre um Tim Burton em particular. (Re)vi, gostei, nem tanto, e daí? Sou que nem Clarice em um ponto – terminar um pensamento é gritar Fla em prado de Flu, ou seja, um evento extraordinário no sentido mais lingüisticamente correto, pé-da-letra da palavra. E entonces que me percebo com o pé fincado de onde nunca saí – do começo. Por/para que/m escrevo? Quedê a platéia (I) – com seus tomates adestrados (II) à espera da primeira gafe autoral para serem lançados nesta blogueira de vos fala? Será que sequer a (I) mereço – ou os (II) mereço em primeiro lugar? Por que cobiçar uma ola grega quando se está jogando pelo time dos troianos? Ou ganhar uma standing ovation – por algo a mais que um decote e por um público maior que uma braguilha?
Enfim, por que-que essa endless blogueblásice deveria ser lida? Go figure. Não sei se divirto ninguém a não ser meu eu oblíquo – e ele está chapado a maior parte do tempo. No entanto, sou por ora uma espécie de baronesa de Münchhausen, sempre se puxando pelos cabelos com uma mão e escrevendo – teclando, sou muderna – as tais meiasplvs e mentiras honestas com a outra. Applause. E volte sempre.
Tuesday, January 24, 2006
Say goodnight to the lady
Sunday, January 01, 2006
Miss Sinclair (audasciously) presents
Salve, salve, cambada. Como todo mundo sabe (ou ao menos deveria, se não vamos ter que começar tudo de novo), quanto mais se olha, menos se vê. Logo, para que ceder ao esforço de depilar? Portanto, em 2006, meus votos são pra que todo mundo cultive menos aparência e mais essência em sua vida: todos os mizifios deveriam dar um vade retro, um cruz que me credo, um chega-pra-lá-que-te-pego-pra-capar naquilo tudo que empaca seu dia, empata sua foda, atrasa sua vida, adia a hora agá e fecha as cortinas para o verdadeiro espetáculo que é o lessing the talk ‘n’ moring the action nessa vida que é bonita, é bonita e é bonita...
É bunda-lelê em Buckingham? Backpacking no cu do mundo (ou do bofe do 304)? Quinze minutos de infâmia entoando um “ei, Godár, vai tomar no cu!” no próximo Cinturão de Cinefilia abotoado pelos filisteus-de-uma-puta da stravaganza intelequituau contra-campista? Isso! Issa! Não temeis o dedo do Senhor a cutucar sua ferida, ó infiel (mas não se esqueça de assegurar a vaselina e amolecer a manteiga nos conformes do supositório filosófico de São Tomei, o apóstolo que só acreditava no que via a sua frente e principalmente as suas costas): now that we hung the oldman, que o velhinho foi bater as chuteiras, pendurar as botas, desamarrar os cadarços, que o calendário renovou e a esperança se enfiou no buraco negro novinho em trolha do medo, não se contente com pouco: pra que pedir um gole se você pode ter uma garrafa, uma adega, um vinheiro inteiro na Califuckórnia só pra chamar de seu?
Por isso, no ano novo que nos espera, take your youth and shove up the ass dessa gente que quer vestidos bonitos, champanha francesa, metáforas a granel. Nesse dois-mil-e-seis, não tenha medo de ser ha-ha sem graça, sem sal, sem paciência pra tudo aquilo que te dite a cartilha, que repita o modelito, que faça bonito sem fazer feio também. Chères e chéries, sejamos realistas: refaçamos o impossível. Go, baby, go, go. Porque lá no fundo real life é que nem o perfil da Barbra, não dá pra embonecar com maquiagem: melhor assumir a nareba e digerir o luxo e o lixo numa galgada só, sem purpurinar ou reciclar coisa alguma, porra nenhuma.
Sunday, December 11, 2005
So let your fists do the talking
Saturday, November 19, 2005
Eu acho que é isso que eles chamam de blues
Adestro a pulga atrás da orelha e me volto pra tela. No pontapé do começo: é francês e vai mudar a minha vida. No mesmo instante capto com o rabo do olho um garoto magrinho e inquieto, com ares de quem boghobou três listras para o seu casaco-espetáculo, e rimos à beça, talvez por perceber que a vida não tem sentido se você for a décima-quinta linha de uma biografia da Paris Hilton, mas principalmente ao descobrir que ainda mais improcedente, for the average man, seria dividir sua kitschnette com ecce homo tão high-profile na statusfera da boiolindiece cultural do Homo cinefilus (A Tangerina, in: Hang the writer, 2005, dadá).
Masscult? Indústria Cultural? Audiência infantilizada? Cultura de pastiche? Adorno de touquinha entonando aaaaaaaau bái mái céeelfff? Nem sombra, nem dúvida. Toda a ação se passa às favas com qualquer qüiproquó popular que não calhe de virar o darling da vez dessa inteligentzia de cabelo meticulosamente desgrenhado e cérebro mais ainda. Ou seja: explico. Porque é claro que todo homem se comporta de acordo com o que é esperado dele. Existem pessoas dotadas com a capacidade ímpar de chacoalhar ‘e’ rolar com uma leitura de Horkheimer e pular carniça ao mesmo tempo. Outras, por sua vez, permanecem condenadas a ter uma vida sexual.
Lá no fundo da caixola, a ponderação bate e fica pra jantar. Ainda que a contra-gosto, aceito a convidada e troco a magia a dois, o menáge a três e o diabo a quatro do cinéma de Godard e cia. pelo charme discret de la indieoisie esparramada do lado de cá da tela. Pois sim. Alguém deveria fazer uma religião para ela. Criar modalidade olímpica. Deduzir do imposto de renda. Sim, bâibe! She’s trying too hard. Quase engana com o suspensório do vovô, os sapatos Karl Marx e essa manha trendy, cult, unique, cool, marginal, hype, supermaravilhosa que nem te conto.
Nunca levo um intelectual a sério. O problema é que eles se levam. Que joguem a primeira pedra, a lenha, os buttons, o uísque sem gelo, o sal, a calça xadrex pro lado de lá e cabelos ao vento rebentando no frug da pseudo-intelectualidade. Que digam em setecentas laudas o que poderia ter sido dito em uma sílaba sem ponto-e-vírgula com exclamação – sem deixar faltar chá. Sob a ameaça das bofetadas da metalinguagem, a autora consente: era o fim do mundo como nós o conhecíamos. Quem sabe, cala. Quem não sabe, dá aula. Quem não sabe dar aula, cria um blógui. Ah, ecce homo!
Friday, October 28, 2005
Assim falou Zaccarias
Quer saber?
Frankly, my dear, I don’t give a damn.
Wednesday, August 31, 2005
O que Allen diria a Virginia, livro I: se os dentistas fossem músicos
Caro G.,
Enfim, livre! As aulas acabaram e posso finalmente voltar a me dedicar à música. Você acredita que o meu professor de periodontia odontológica me reprovou só porque confundi a arcada inferior do Sr. Leônidas com a capa do novo CD do ...Trail of Dead? Ele é tão quadrado e burguês que às vezes me dá vontade de invadir sua casa e trocar todos os quadros de lugar! Estou certo que ele não reconheceria arte contemporânea nem se ela bochechasse na sua cara. Ah, meu caro F.! Estou cada vez mais desconfiado que o verdadeiro espírito artístico é privilégio de poucos – caso contrário, estou certo que meu paciente não teria se mostrado tão obtuso à idéia de extrair seus molares para pô-los como reticências no encarte do próximo disco. Mas que gentinha mais desprezível, e que mania irritante de usar sapatos! Evidente que, depois desse infeliz episódio, tive que ligar para mamãe e pedir que enviasse mais dinheiro, de modo que a Escova de Dente de Ouro pôde continuar os ensaios no estúdio sem que fosse preciso que eu chantageasse o estudante kantiano do sexto período sobre seus hábitos de sair por aí mexendo no imperativo categórico dos outros sem usar agulhas descartáveis – o que só não seria incômodo para um paciente que tivesse sido anestesiado com doses maciças de leitura frankfurtiana. Nossa primeira faixa, Canal no Panamá, já está em fase de produção e contará com a participação do Dr. L., o melhor dentista da região, que acionará seu motorzinho toda vez que nosso vocalista fingir dor de barriga no refrão. Se ao menos papai estivesse vivo, tenho certeza que ele sentiria muito orgulho de mim – e deixaria de fingir que não me conhece nas festas de família. Ah, Hegel.
F.
Wednesday, July 13, 2005
Monday, July 04, 2005
Morrer é uma questão de método
Existem várias teorias sobre a morte, mas absolutamente nenhuma delas explica a aplicação da Lei da Relatividade na gastronomia étnica de nosso país (talvez porque, nas palavras de um ilustre expoente da sociedade científica que não quis se identificar, "nós possamos ter-nos desviado da nossa linha de pesquisa em algum momento"). Como muitas pessoas já desconfiavam, bater as botas é, no fundo, o menor dos nossos problemas (contanto, naturalmente, que você se sinta bem com a cor do seu cadarço). O que acontece depois é, isso sim, o verdadeiro mistério. Para onde vamos, quanto tempo demora para chegar lá e que tipo de roupa devemos levar são perguntas que já passaram pela cabeça de todo mundo pelo menos uma vez na vida, seja ele o moribundo tísico, o atleta saudável ou a sua tia distante que lhe manda uma boneca todo Natal (embora você se chame Ernesto e tenha 26 anos há até bastante tempo).
Quem, afinal, paga a conta de luz para que você possa ter todo aquele espetáculo pirotécnico no fim do túnel que sempre lhe prometeram? Certamente não os seus parentes, que ainda estarão se desdobrando - literalmente, se você pertencer a uma família de contorcionistas - para pagar todo o ônus funerário de sua morte enquanto você toma banana daiquiris no céu (ou no inferno, caso você seja ateu, advogado ou simplesmente um pé-no-saco) e discute a arte da jardinagem filipina com Alfredo, um carteiro que faleceu no ano anterior graças a um sinistro ataque de fúria por parte de anões belgas que andavam se sentindo marginalizados pela sociedade capitalista e opressora. Quanto ao seu plano de saúde, como pedir para que ele pague por sua luz no fim do túnel se ele sequer cobria suas despesas dentárias quando você estava vivo? Deus, a opção que para muitos poderia ser apontada como a mais plausível e justa (talvez porque Ele seja a única entidade sobrenatural que tenha American Express, embora haja os que digam que é puro exibicionismo de Sua parte), tampouco: com tantas guerras, enchentes e penteados dos anos 80 mundo afora para serem enfrentados, todo o trabalho burocrático não resistirá muito antes de ser relegado para as instâncias inferiores.
Mas quem são essas instâncias inferiores, uma pessoa razoável poderia questionar (ou simplesmente pular o assunto e, no lugar, começar a fazer um curso de estenografia por correspondência, uma vez que ela é uma pessoa razoável esclarecida e faz o que bem entender). Para a Grécia Antiga, elas se chamavam Cloto, Laquesis e Atropos e eram conhecidas como as Parcas, figuras mitológicas que controlavam os fios da vida e decidiam quem morria ou não. A Grécia Moderna já não pensa mais assim, embora continue faturando horrores no mercado têxtil temático.
Já grande parte do Ocidente gosta de acreditar que os anjos são os funcionários públicos do Paraíso. Daí inclusive teria originado a idéia de anjo-da-guarda: enquanto Deus se ocuparia com tarefas de escala mais global – como eras glaciais e chuvas que duravam 40 dias e 40 noites (o que era uma grande sacanagem com todos aqueles que não detinham o monopólio das construtoras de arcas) -, os anjos estariam empenhados numa missão mais individual e menos sensacionalista. Todavia, a imagem pulcra e nobre que temos do exército do Senhor é altamente questionada pelos Letrismo, uma escola histórica pouco afamada que crê que a Bíblia nada mais foi do que uma sopa de letrinhas que Deus acidentalmente deixou derramar durante uma briga com Zeus a respeito de marcas e patentes. Para os letristas, apesar da versão oficial nos contar que Deus teria descansado no sétimo dia, a verdade seria que, irritados com a fama de que passavam o dia tocando harpas que seria espalhada num futuro longínquo pelo homem – a mais recente e mimada criação divina -, os anjos teriam feito a primeira greve da história e se recusado a completar tarefas como a paz mundial e o Grand Canyon. (Rezam as lendas que, como punição, a ira divina teria lhes tirado o sexo e ainda ganho uma fortuna ao patentear os bonecos Ken.)
Sunday, July 03, 2005
Deus, nozes e outras considerações
A raça humana, como todos sabem, é a espécie mais inteligente do planeta, uma vez que é a única espécie capaz de refletir sobre o seu próprio reflexo, falar da própria fala e se conscientizar acerca da própria consciência, e isso tudo enquanto combina a cor da meia com a da gravata. E mais: a humanidade gosta de debater sobre física quântica, falar sobre ela na terceira pessoa e, sempre que pode, faz questão de jogar na cara dos outros animais o tal do lance dos polegares opositores (o que, modéstia dEle à parte, foi essencial para que o homem pudesse manusear ferramentas, jogar fliperamas e estourar plásticos-bolha). Inventamos o macarrão instantâneo, os programas de auditório e gostamos de tomar sopa com colher, embora estudos já tenham comprovado que o canudo, nesse caso, é muito mais apropriado para evitar queimaduras na boca.
Deus que nos fez à sua imagem e semelhança, o que torna um tanto estranho o fato de alguns de nós parecermos com Janet Reno ou com o Sr. Madruga. Concedeu-nos o livre arbítrio para que pudéssemos exercer nosso pleno direito de implantar ditaduras, entupir-nos de carboidratos ou simplesmente andar na rua com uma caixa com os dizeres "cabeça humana", mas só pela graça disso. Contudo, nada disso tira d’Ele o Cinturão de Criador, O Princípio de Todas as Coisas, o Onisciente, Onipresente, Onipotente e Tudo o Mais. Afinal, estamos falando de um cara que já acumulou em sua estante uma quantidade respeitável de prêmios, como o Grande Prêmio de efeitos especiais por todas as Grandes Guerras, a melhor intervenção divina no Festival Internacional de Milagres com o cancelamento de Baywatch e que, nos tempos vagos, ainda concorreu para Miss Divindade Via Láctea (que teria ganhado de Alá, se não fosse por aquelas duas polegadas extras no quadril).
Cara de muitos amigos, ainda mais inimigos e quatro ou cinco simpatizantes, Deus é tema de um sem-fim de fãs-clubes, sociedades secretas, grupos terroristas e, numa cidadezinha mineira, ainda dá o nome para um pequeno sex-shop atrás da vídeo-locadora da cidade. Deus é, de fato, onipresente: está no pão nosso de cada dia, na maioria das letras de pagode e no discurso de tudo quanto é político às vésperas de eleição. É verdade que, ao longo da nossa história, Deus já morreu várias vezes e de várias formas, inclusive de tanto rir com cada nova tentativa do homem em tentar achar o sentido da vida (que Ele mesmo não sabe qual é, embora tenha, nos últimos séculos, desenvolvido uma teoria de que possa ser o fato de milhões de árvores no mundo serem plantadas acidentalmente por esquilos que enterram suas nozes e não lembram onde eles as escondem). Ainda hoje muitos de nós perguntarmos se Deus realmente existe ou se Ele seria uma invenção que a humanidade criou para aliviar seu profundo sentimento de desamparo existencial, uma vez que vivemos num mundo com tanta miséria, unhas quebradas e homens que se chamam Astrogildo. Deus já foi sepultado pelos positivistas, rejeitado pelos niilistas e transformado em caixinha de dízimos pela Igreja Universal - e isso sem falar nos agnósticos, que andaram espalhando por aí que Deus teve um filho com Britney Spears só para difamar Sua imagem -, mas ainda assim continua, trocadilhos à parte, com os índices de popularidade lá nos céus. O fato é que a humanidade ainda não está preparada para se livrar d’Ele de uma vez por todas, até porque o ateísmo não tem nem tanta graça, nem tantos feriados. Ainda teremos Sua presença garantida por muito tempo em nossa vida. Ícone pop por excelência, Deus estará sempre conosco no planeta que nos arrendou para que reinemos soberanos, até que um dia um garoto canadense esqueça de dar a descarga na escola e, por algum motivo fora de qualquer compreensão possível, este fato desencadeie uma cadeia altamente improvável de acontecimentos que resultará na invasão do planeta pela raça alienígena Ordnave, que detestará cada pedacinho de matéria terrestre, com exceção de pretzels (que os lembrariam da forma de seu planeta de origem) e do cabelo da Cher (para isso, não haveria qualquer tipo de explicação lógica). Amém.
Sunday, June 19, 2005
Hang the writer
Evidente que, a partir de um certo ponto, gostar de cinema passa a ser prova inconteste da superioridade intelectual de um sobre outrem. Ora, o raciocínio, ao menos à primeira vista, parece óbvio, uma vez que, para a maioria das pessoas, nada parece durar tanto quanto um filme iraniano (embora um jogo de xadrez entre um homem e sua dupla personalidade já tenha confundido alguns teóricos do assunto no passado). Tudo bem que a maior parte da humanidade não consegue ver um filme de Godard sem deixar que sua mente se distraia com pensamentos como contas atrasadas, inversão térmica ou dominação global, mas o que isso deveria provar?
Certamente nada com un peu de tudo. Não obstante haja muito cinéfilo por aí se vendendo como a bolacha mais recheada do pacote, o simples fato de gostar de gostar de cinema não faz ninguém desabrochar em fina flor do intelectum brasileiro de uma hora para outra. Não é nem tão simples, nem tão fácil assim. É preciso muito mais. Ou menos. Menos arrogância, menos pedantismo e, definitivamente, menos certezas de que a fatalidade do mundo cabe nunca casca de noz, uma vez que um ônibus 174 começa tão-somente a esboçar a dimensão do problema.
Pois: as aparências não têm outra função se não a de enganar o próprio e o próximo, não obstante alguns psiquiatras já tenham alertado que, no fundo, tudo o que elas querem é um pouco de atenção. Todo mundo é o que é, com a exceção de que poderia muito bem ser outra coisa. Logo, um homem não deveria jamais ser julgado simplesmente pelo que vê, pensa ou veste (a não ser que ele faça os três muito mal).
É mais seguro ser pseudo-intelectual ou ignaro confesso? Nenhum dos dois, se você tem quarenta anos, usa suspensórios e mora na casa da sua mãe. É verdade que poucas coisas são tão dolorosas para um cinéfilo quanto constatar que existe vida inteligente fora das salas Espaço Unibanco - principalmente se ela costumava roubar o seu lanche na hora do recreio. Se existem jeitos mais preguiçosos e menos onerosos de catalogar a inteligência de alguém, a história é completamente diferente: tratar a Sétima Arte como suplemento vitamínico para o QI é um argumento que peca tanto pela deficiência quanto pela leviandade de suas pretensões. Melhor tomar suco de laranja mecânica ou ouvir Mozart na barriga da mãe. Aconselho a sinfonia nº40 em sol menor. Inteligência garantida ou o seu dinheiro de volta. Palavra de Adorno.


