Sunday, April 23, 2006

Was Romeo really a jerk...

... and Juliet actually a bitch?

Só sei que Scott Walker disse tudo.

Saturday, April 01, 2006

"Jean-Luke... I'm your father!"

ou “Trufô no cu de Godár é Lola” (Países Baixos, 2006). Direção de Danny DeVito. Estrelando Matheus Natchergaele, Verne Troyer, Giulietta Masina, ET, Toulouse-Lautrec, María Antonieta de Las Nieves, Grande Otelo, Carolina Pavanelli e Pequeno Elenco. Nos anos 60, estudantes de cinema verticalmente prejudicados da Ôropa constróem uma máquina do tempo a partir de um ambicioso experimento envolvendo conceitos de tempo, espaço e macarena ídiche. Decididos a desafiar a prisão temporal em busca do filme perfeito, começam uma jornada sensacional pela história do cinema mas, por motivos de força menor, calham de cair no apartamento do herdeiro biba de Jean-Luke Godár, que a essa altura passava as tardes em seu apartamento tricotando papel higiênico e assustando vizinhos e fãs ocasionais com uma interpretação mocoronga de Ferris Bueller, contra-plongé, bengala de fora. Acomodado na sala de Lola Godár, filhota queima-rosca do então ícone mor da cinémathèque française, o grupo vai pouco a pouco reconfigurando seu olhar sobre o fazer cinematográfico a partir da apresentação de correntes surgidas nas décadas posteriores aos banbanbans da nouvelle-vague. Com Lola, os estudantes aprenderão que é possível descer do salto e ainda assim estar à altura do tamanho do documento de gigantes do cinèma. Passando por obras-primas do Cinema de Retaguarda, como a pérola O Demônio dá onze horas, até a reeleitura cartesiana proposta pelo manifesto revolucionário O discurso do méto tudo mermo, e daí?, dedicado a discutir se a extensão da res cogitans de um cineasta faz ou não diferença afinal de contas, os viajantes do tempo terão sua visão de mundo e outros pontos do seu ser alargados após a experiência de inestimável valor fálico. Um clássico para baixinhos de todas as idades.

Friday, March 24, 2006

The one where Cinderela gets high

Jantou meio pacote de Camel, vestiu a melhor calcinha (preta) e saiu pelas portas do castelo para nunca mais voltar. Era Leary na veia, ha-ha, ela tava numa boa, numa marola que só na onda do ácido, uma parada maneira que a Bela Entorpecida havia repassado na noite anterior. Esse era dos fortes, uia, os efeitos apareciam sem convite e não demorou muito para que todos os convidados do baile virassem a bunda da rainha Eliza Béti, a Feia discursando sobre o tipo de bagulho que afinal deixara o Príncipe tão Encantado, merda merda merda de droga barata...

E puta meu, só com meiota e já estava über high naquela noite. Agora tanto fazia. Mais meia hora e começaria a ouvir tudo quanto é tipo de merda em óffi (na certa um sósia vocal do Armandinho, aquele babaca) com ratos falantes que a aconselhariam a partir por aí antes que sua alma se resolvesse por sair do corpo para dar um telefonema. Enfim, um ponto eles tinham, podia ser uma boa e smack smack, distribuiu dois beijinhos nas amigas e cambaleou um pouco pelas ruas do reinado até o primeiro beco, onde topou com a hippie doidona da Rapunzelda. Resolveu parar pra levar um papinho.

As duas se olharam, trinta segundos de silêncio, o que não é nada para um viciado (“o tempo não existe, no duro!”). Rapunzelda fez uma pausa significativa, passou a mão pelas longas madeixas e acendeu um baseadinho da paz. Respirou fundo e, com a mão pousada no ombro da garota, confessou-lhe uma cousa que só ela e o Grilo Fumante sabiam: Cinderela era uma personagem de ficção.

A jovem partiu desabalada com a notícia e, como se não bastasse, sentindo os efeitos do ácido martelando em cada pedacinho do seu corpo, como se todas as suas células tivessem topado um campeonato de ula-ula tirolês e estivessem agora a caminho da finalíssima, Honolulu, 2006. Sentiu vontade de morrer. Sentiu vontade de matar. Engarrafada na via das dúvidas, decidiu-se por voltar e dar um tapa no bagulho de Rapunzelda; aquela história precisava ser esclarecida, enfim. Agora. Seu mundo estava destruído, sua verdade, nua (ou essa era ela?) e pensando bem, seria a realidade tão terrível? Não, não se você estivesse apropriadamente vestida para ela. Coisa que não estava.

(...) foda-se, foda-me, sentiu de vontade de perder a linha, o novelo, de perder um tapete voador inteiro para esquecer aquela merda. Um, dois tragos mais tarde e deu adieu adieu para a hippie chapada. Decidiu partir pra sempre: hasta la vista, baby, era isso. Precisava encontrar o Sentido da Vida, contado com bonequinhos de Playmobil, trilha sonora by Wander Wildner e o caralho. Entrou no bar no melhor estilo faroeste e mirou sua primeira vítima à moda Robocop, tu tu tu, macho, tu tu tu, 28, tu tu tu, no balcão, o coitado: cabelos desgrenhados, olhar de louco e um enorme cartaz que dizia CHIFRADO, basicamente. Mas negou colo e fumo, o puto. Não gostava da fruta.

- Viado do tipo não-mulher? Mesmo?
- Ha, ha. É, er, desconfio que sim.
- Nem aos domingos?

Sentiu vontade de mandar enfiar a porra do cartaz num lugar onde o sol não bate mas refreou, papo manso. Conversaram a noite toda, se deram bem. Decidiram fazer um fedelho (dividiriam meio-a-meio) na noite seguinte e o primeiro choro seria o código para o ataque das Panteras. Hoje ele se chama Armandinho, aquele babaca. A cara do pai.

Wednesday, March 15, 2006

Uma nação contra Hitler

Leitura dinâmica, fazendo favor. O texto é longo e a paciência é curta. Mais do mesmo aqui.

2006 foi um ano politicamente correto para a Academia. Uma mulher contra Hitler, o strudel alemão que disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro contra o vencedor Tsotsi e o supramencionado Paradise now, foi só um dos vários nomes da noite que vestiram a camisa política nos corredores do Teatro Kodak. De Clooney a Clooney, com o regular Syriana e o ótimo Boa noite e boa sorte, ao (pálido) debate racial em Crash e à bandeira levantada do orgulho gay em Capote e Brokeback Mountain, o clima em geral era favorável à débâcle do festival de ortodoxia usualmente oferecido pelo então conservador júri da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Pois quanto à amazing disgrace que tematizou a politizada cerimônia desse ano, o longa-metragem de Marc Rothemund se encaixa impecavelmente no perfil. A partir dos cinco últimos dias da vida de Sophie Scholl (Julie Jentsch), uma jovem alemã que foi presa, condenada e julgada à morte junto ao irmão e um amigo durante o breve período por sua participação em um movimento de resistência ao Terceiro Reich, o diretor traz de volta às telas toda a amargura de um país que até hoje luta para fazer as pazes com, ou melhor, pelo seu passado.

Frente de oposição formada por estudantes em plena II Guerra Mundial, o Weisse Rose – ou Rosa Branca – sucumbiu às garras da águia nazista com o episódio o qual o filme se propõe a (re)contar, em que os irmãos Scholl são apreendidos na Universidade de Munique após espalharem por suas instalações cartas que questionavam “a brilhante estratégia de nosso führer” em persistir numa guerra cujo final da estória, predito por capítulos sangrentos como Stalingrado, era a derrota iminente. Jogados 1943 – ano em que a sorte do conflito começou a contornar em prol dos Aliados -, e à luz da história já revista, a avaliação dos jovens parece óbvia. O problema é que era mesmo. O que ainda assim, como bem se sabe, não impediu, às custas de milhões de vidas – de ambos os lados -, que o Terceiro Reich só pontuasse o final dessa guerra dois anos mais tarde, com uma bala para Hitler e uma segunda derrota em menos de trinta anos para a Alemanha.

A questão de Rothemund, no entanto, parece estar mais no presente do que no passado. Com a nuvem do trauma nacional-socialista dissipando-se pouco a pouco com o passar dos anos, volta e meia uma nova leva de produções na cinematografia mundial chega, com direito a choque elétrico e o caralho, para enfim apertar a mão que balançou o berço nazista da Europa de meados do século XX. Uma mulher contra Hitler, nesse sentido, é mais uma peça de expiação da culpa por parte da juventude contemporânea alemã.

Com passaporte em mãos, o desejo é uno: sair por fim e de uma vez por todas do purgatório o qual a velha guarda alemã, o vovô Fritz, toda uma nação hipnotizada pela oratória fascista de Hitler reservou às futuras gerações para uma estada forçada. Com um peso do tamanho do holocausto para escusar de seus ombros, a tarefa não é fácil. É colossal. Filmes como A queda e mesmo Os produtores, refilmagem em Broadway style de Primavera para Hitler (uma parceria clássica de Mel Brooks e Zero Mostel) parecem, contudo, dispostos a comprar essa briga. Cenas como o führer chorando como menininha ou como destaque em avenida na gay parade nacional-socialista são evidências notáveis nessa direção. Os tempos, definitivamente, estão mudando.

Enfim, nada carregado com o ar denso, prolongaaaaado que se esperaria respirar numa atmosfera tão pesada quanto a que envolve uma nação ainda despreparada a sentar-se no divã e alijar os traumas deixados pelos seus antepassados – o mesmo sangue! correndo pelas suas veias! - ao invés de ir ao confessionário penitenciar-se por um pecado que não cometou. Pois esse parece ser o pique da nova geração alemã. Seja ao retratar um Hitler humanizado n’A queda, seja ao insistir em bater na mesma tecla para escrever uma estória onde nem todas as personagens resumiram a personificação do Mal maiúsculo e que algumas, imagine!, ousaram inclusive se opôr ao regime hitlerista, a idéia em pauta não é perdoar, mas olhar para trás pela perspectiva dos vencidos, no lugar apenas daquela dos vencedores.

Assim, a ordem do dia, cada vez mais, é pôr em quarentena a mais contagiosa necessidade de autoflagelo para provar que só chora pelo leite derramado quem gosta de coalhada. É claro que os nazistas eram malvadões. Ninguém está aqui para contrariar isso, muito menos Marc Rothemund: em contrapartida ao Hitler de Bruno Ganz, que conseguia encaixar em sua agenda alguns espasmos de humanidade entre pular fogueira com Nero e o chá das cinco com o Capeta, o nazista de Uma mulher contra Hitler veste uma carapuça feita à medida exata para acentuar a vilania esperada do mau elemento que é. Mostra os dentes, dá chilique, bate os pés. Um verdadeiro show de intransigência, enfim.

O que não deixa de ser, nesse aspecto, o ponto fraco do filme. Sophie Scholl representa uma espécie de Joana D’Arc sabor chucrute, chegando a recrutar nada menos que a justiça divina para alterar o pino de rotação do Eixo do Mal. “Podem nos julgar agora, mas amanhã serão vocês a estarem no nosso lugar,” como profetiza a candidata à Miss Mártir 1943. Uma pena. Sem esse quinhão de maniqueísmo, a história só teria a ganhar.

Mas como carro-chefe da película, o mérito, ou pelo menos o mote do filme é mostrar que não, senhor, nem toda a Alemanha cruzou os braços e foi jogar bridge enquanto Hitler brincava de dominar o mundo. Hannah Arendt já disse que, muito provavelmente, estando no mesmo lugar e hora errados, qualquer ser humano consentiria com a via-crúcis nazista com a mesma naturalidade que um Hans e uma Frau o fizeram durante o Terceiro Reich. Ou seja, pensar em um gene germânico vestindo a camisa do Mal, estipulando a vocação de um povo à vilania, é simplesmente ridículo. Da mesma forma, e é aqui onde o trabalho de Marc Rothemund esbarra com sua raison d’être, trazer à tona a história do Rosa Branca é uma forma de oferecer evidências ao tribunal histórico que mesmo o “abjeto povo alemão” postou, na medida do possível e do impossível, resistência aos planos megalomaníacos de seu führer.

Se o filme começa arejando ares de thriller político, com cenas tensas onde Sophie e o irmão colocam a operação em ação numa verdadeira batalha contra o tempo, essa adrenalina inicial – de sutil parentesco hollywoodiano - logo se esvai para dar espaço a uma sempre bem vinda trama psicológica, quando Sophie é interrogada por Robert Mohr (Gerald Alexander Held), integrante da polícia de Adolf Hitler.

Mas sem duplos twists carpados mirabolantes no roteiro, que fique claro. E nem precisa. O diálogo travado entre a jovem idealista e o oficial nazista é, na verdade, e acima de tudo, um embate ideológico. E uma guerra antes de tudo travada em palavras, artilharia tão ou mais mortífera que as bombas que devastaram a Europa daqueles dias. Amparada por sólida atuação da dupla de atores, estas são indubitavelmente as melhores cenas do filme, capazes de levar qualquer espectador a desejar entrar ele mesmo na tela e sacudir Mohr pelo colarinho até que sua máscara de inflexibilidade caia película abaixo (embora a oscilação do interrogador quanto à validade do ideário nazista seja evidenciada em mais de uma parte do filme – o que não o impede, entretanto, de assegurar que o próximo passo do trio de militantes seja em direção ao corredor da morte).

Sophie Scholl, durante todo o interrogatório, é uma amazona. Mente e manipula com facilidade notável em defesa de sua causa e também para defender a identidade dos outros componentes do movimento de resistência pacífica. (O único momento em que se permite fraquejar é quando está sozinha em frente ao espelho, após tornar-se nítido que todas suas tentativas de driblar a inteligência nazista se revelaram vãs – uma das cenas mais reveladoras do filme.) No resto do tempo, sua dissimulação esculpi um caráter que, mais que uma montanha, é uma verdadeira cordilheira de gelo. Fria, inabalável, obstinada. Tudo em prol daquele tipo de paixão que só um idealista old school nutre por uma causa.

A força da personagem, todavia, deve a maior parte do crédito à atuação de sua atriz. E nesse sentido, com pouco ou nenhum tropeço, a conclusão é invariavelmente a mesma para o lado de cá da platéia: Julia Jentsch, mais conhecida pela sua participação no oba-oba juvenil de Hans Weingartner, Edukators (uma espécie de bíblia cinematográfica para a Che generation dos tempos coevos), amadureceu. Com louvor. Sua interpretação para Sophie Scholl é tão sólida quanto as convicções da personagem, tornando a fé do espectador no idealismo da jovem quase que uma obrigação.

Uma mulher contra Hitler tem suas falhas, e não são poucas. A câmera é um tanto burocrática. Os sentimentos do espectador, por ora manipulados. Não duvide ainda que alguns irão questionar se a escolha de enfocar a história de Sophie somente, ao invés dos três militantes executados naquela noite de fevereiro de 1943, pode carregar algo de apelo feminista franqueado, visto como os atos de bravura realizados por Sophie não são mais instigantes do que, por exemplo, aqueles de seu irmão. Mas não faz mal. Pesando os prós e os contras do filme, a balança é simpática à causa de Rothemund.

E se o sacrifício de Sophie Scholl foi em vão? Não a esquecer, mas deixá-la para trás junto com todo o panorama que levou à morte da militante é justamente o divórcio entre passado e presente pleiteado por uma nação que legou a mais maldita de todas as heranças. A incompatibilidade de gênios entre a atual Alemanha e aquela de Adolf Hitler é, afinal, a idéia entalada na garganta de toda uma geração.

Friday, February 24, 2006

É impressão minha

ou a Chapada dos Viadeiros leva mesmo o Carecão de Ouro pra cama esse ano? O tema até rendia, mas o filme é ruim paca. Sou mais a Tiffany ou o Dr. Ross.

Ai, ai, ai, fofo. Monta o meu que eu monto o seu, vai.

Sunday, February 19, 2006

Dois filhos de Friedricho

E dessa vez, meu amigo, amigo meu, Caretano Seboso se hospedou na casa do caralho: com o devido despeito, mas ninguém mais quer saber de filosofar em alemão. Pois uma temporada fundindo a cuca com os livros de Nitchi, o bigode mais proeminente da filosofia germênica, foi suficiente para que Hansel e Gretel, meus dois neurônios alemães, pedissem arrego e se resolvessem por ir tirar umas férias em terras blogueirais - onde sairiam à procura de formas mais simples e diretas de passar o recado deste que é um verdadeiro titã da cultura bigoduda ocidental. Aterrissados em solo tangerínico, encontraram enfim a perfeita kitschinette virtual para acomodar toda uma bookaria especializada em Philosophy for Dummies: onde os fascículos são introduzidos (mas com gentileza, rapazes, com gentileza) por um prelúdio de Cid Chateira e acompanhados por uma bela tangerinada na testa do leitor, cortesia da casa.
Quer mais? Quem comprar a coleção inteira de uma só vez ainda ganha o direito de receber em casa um devedê exclusivo da turnê de estréia de Ranço & Gretchen, a dupla sertaneja que mantêm a peteca nietzschiniana no ar com sucessos instantâneos como “Assim falou Zaccarias”, “The knights who say Ni... tchhhiii” (um espetacular show de sonoplastia garantido pela abertura em pleno palco e na hora agá de uma latinha de Leibeerniz, a única cerveja que te leva verdadeiramente ao melhor dos mundos possíveis) e, last but not least, um cover arrebatador de “Eterno Retorno”, onde o Supremo himself dá uma palhinha e enraba um garboso eu volteeeeei, voltei para ficar na estrofe final.
Porcaquiiiiii, caqui é o seu lugar também ora pois então, you! hypocrite lecteur! – mon senblable, - mon frère! Chegue-pra-lá com a cafonice da intelequituaulidade sem contudo lançar-se à deriva no mar da ignorância. Com o devido despeito, o devido despeito.

Friday, February 17, 2006

Nove canções

:: Almost Crimes – Broken Social Scene
:: Black Saint and the Sinner Lady, The – Charles Mingus
:: Candyland – Cocorosie
:: Jackie – Scott Walker
:: Limehouse Blues – Django Reinhardt
:: Sing Sing Sing – Benny Goodman
:: Suicide is Painless – Manic Street Preachers
:: Take Your Carriage and Shove It – Belle & Sebastian
:: Unza Unza Time – Emir Kusturica and the No Smoking Band

Tuesday, February 14, 2006

Dá-lhe uma, dá-lhe duas, dá-lhe vinte

"O que eu toco? Ah, eu toco muitas coisas..."

Deu n’O Grobo, dia desses. Freqüentadores assíduos da Limbolândia musical, os rapazes do Rebelde Sem Calça conseguiram entrar pela porta da frente do mundo pop depois de anos adentrando algumas portas de trás de caras e coroas do ramo. Após uma pitada de sal boliviano na sua carreira, a banda, liderada por Géraldji Thomas no Cu - também conhecido como o verdadeiro Bundinha do meio musical -, passou a incendiar os palcos mundiais com a performance bunda-leleística do hit Samba-canção Não Esconde o Refrão e já anuncia o lançamento de seu mais novo single, Tum-tchi-tum-tchi-tum-trrrr-pá, desde já caído no gosto de soletradores de todo Brasil. Para comemorar o recente suséquiço mais as duas décadas do Rebelde Sem Calça enfiando (opa, opa) o pé na jaca e na estrada, Géraldji, em entrevista para o jornal carioca, noticiou em primeira mão o lançamento das faixas O Pródigo Dá pra Vinti e A Pica dos Vinte Ânus para a segunda quinzena de fevereiro - “quando os bofes todos caem de quatro com a gripe aviária e soltam a franga no Carnaval”, explica o aspirante a rockstar. Segundo a revista Rolling With a Stone, “uma banda para ficar nos anais da história da música”. Um verdadeiro desbunde.

Sunday, February 12, 2006

Junebug me

Um filme que ninguém viu, pois então. Fiz à toa. Don't bother.

Difícil encontrar voz discordante: Junebug é indie da cabeça - coberta com os penteados minuciosamente desgrenhados – aos pés - calçados no velho all-star surrado. Em Sundance mode: on durante os 107 minutos de película e com trilha sonora assinada por um memorável trabalho da veterana Yo La Tengo (banda íntima do círculo alternativo), a première em longa-metragem do diretor Phil Morrison tem como mérito, ainda, possuir um algo-a-mais que o cheap look já carimbado do cinema independente made in USA. Uma vantagem que, no páreo final, revela-se responsável por fazer o filme disparar à dianteira como um dos mais autênticos e (portanto) melhores retratos da América como ela é dos últimos anos.
Em sintonia afinada com o roteirista Angus McLachlan e à procura dos Estados Unidos da Outra América, Morrison carrega a história para os confins mais provincianos da Carolina do Norte quando Madeleine (uma afiada Embeth Davidtz), habituée do cosmopolitan way of life da cidade grande, passa pelo teste de fogo de conhecer a família do marido, George (Alessandro Nivola), um golden boy do Sul relativamente despido da mentalidade interiorana. Uma experiência que melhor cairia como sabatina, e que não a deixará imune às queimaduras geradas pelas faíscas mais do que esperadas com a colisão de dois mundos completamente distintos.
A história abre. Logo, acompanhamos a jovem marchande, lado a lado a George - com quem casou semanas? dias? instantes? após conhecê-lo num ímpeto de paixão - percorrer a trilha caipira do país em busca de David Wark (Frank Hoyt Taylor), um artista plástico que ventila ares marginais com suas pinturas de pênis gigantes e escravos de rosto branco. (“É que eu nunca vi um negro na minha vida. Então, eu ponho neles o rosto das pessoas que mais gosto.”) Se há ironia na explicação de sua obra? Difícil dizer. Wark, à moda vanguardista, não parece dotado ou com a vontade ou com a capacidade – quiçá ambos – de se fazer claro para o mundo exterior.
Uma vez próximo à região em que cresceu, George deixa seu pensamento escapar em voz alta na forma de uma proposta: e por que não levar a esposa para apresentar ao que, anos mais tarde à sua partida, aprendera a ver como lar, amargo lar? Se Madeleine se mostra pronta a conquistar o coração da família, descobre logo, no entanto, que simpatia não é quase amor no final da contas. Recebida pela casa com uma hostilidade barely covered por uma roupagem de polidez, não demora para perceber que deverá duplicar as doses de tempo e esforço – e triplicar a de paciência – caso ainda queira lutar por um lugar cativo no coração dos pais e irmão do esposo.
Na verdade, a única pessoa a acolher Madeleine com braços abertos e sem dar segundos pensamentos é Ashley (Amy Adams), uma típica garota do interior cuja personalidade é feita a tal ponto de açúcar que o espectador – junto à jovem marchande - vê-se mais de uma vez às voltas com um par ou ímpar mental entre nutrir irritância deliberada ou simpatia irrefreável frente à doçura aspartame – e ao desespero, o que pode por vezes soar redundante - da mulher grávida de Johnny (Benjamim McKenzie), o irmão caçula. E a atuação de Amy mereceria por si só uma resenha à parte: já os primeiros minutos em tela bastam: o filme é ela.
Colecionadora de várias indicações (sendo a mais recente delas a de melhor atriz coadjuvante no Oscar, o eterno pote – ou melhor, careca – de ouro do cinema americano) e prêmios pelo papel, a jovem atriz transmite à perfeição os tiques de ingenuidade e inquietude de uma típica – e desmistificada - girl next door às portas de um mundo adulto para o qual ninguém a preparou. Madeleine, no fundo, representa a Ashley o farol de sofisticação que poderá guiá-la na reconquista de um pouco afável Johnny, comprado por uma espécie de sapo-por-príncipe, gato-por-lebre pela esposa naive.

Mas, antes de vilanizar uns personagens em prol das redenção de outros, Morrison conduz uma narrativa que não dá brecha no sentido de insistir em lembrar ao espectador que, somados erros e acertos, histórias e estórias, culpas e palavras, todos os personagens são exatamente a única cousa que lhes cabe ser: humanos. Demasiadamente humanos. Assim, ainda que a função protagonista de Embeth e a atuação hors concours de Amy garantam os holofotes a Madeleine e Ashley, nenhuma sombra passa ao largo da dupla Morrison e McLachlan: a tensão (não tão) latente entre irmãos, os encontros e desencontros de George com suas raízes sulistas, a dificuldade de comunicar-se com aqueles que ama por parte do patriarca Eugene (Scott Wilson) e o misto de medo e sentimento de inferioridade que pincelam a recepção pouco calorosa de Peg (Celia Weston) à chegada da esposa cosmopolita - uma menina tão bonita... tão inteligente! the enemy! a outra! –, a nova inquilina do coração de seu filho.
O espaço para dúvidas é curto: ainda que como fagulha, Madeleine está longe de ser a pólvora que alimenta a explosiva atmosfera de conflitos entre pais e filhos, irmãos e irmãos, amantes e amantes. No entanto, tanto a chegada desta nova personagem em cena quanto o advento de uma tragédia inesperada serão pontos cruciais para que o leite derramado, azedado, mereça algumas das lágrimas sufocadas ao longo dos anos.
E nesse sentido, Junebug é um drama familiar porém podado de melodrama, que tem como preocupação capital pontuar os caracteres de um Estados Unidos tido como por demais opaco para fazer jus ao brilho hollywoodiano. Pois seu maior valor reside precisamente aí. Ao derrapar nos emblemas do provincianismo americano sem contudo tombar naquele quinhão de esteriótipos já recorrentes ao gênero, Phil Morrison surpreende com um sensível flagrante de pedaços da vida e do sonho de alguns dos sobrinhos menos glamourosos do Tio Sam. Um filme de família, mas no melhor dos sentidos.
Tudo, ainda, sem abrir mão de um humor de PH - 10 (mas sem o ar forçado que muitas vezes impregna o estilo) e uma câmera compassiva, com alguns espasmos de nouvelle vague (sem pôr, no entanto, a originalidade em arritmia). Junebug é prova de que nem sempre é preciso ter uma Asia Argento tentando a qualquer custo fazer filmes bons que desviem do lugar-comum com estilhaços e estilhaços de recursos fílmicos a cada novo quadro dispostos a provar a autenticidade do seu trabalho. Um relato simples sobre a outra história americana contado com um tino que fala volumes pode bastar para compor uma das surpresas mais agradáveis do ano passado – uma pequena obra prima, ainda que de segundo grau.

Acidez e cinismo suficientes para justificar o label indie presentes em uma narrativa que revela mais vocação para acertos do que para erros; nada com sérios riscos de fazer bonito nas bilheterias, enfim. Pois ao flanar pela última edição do Festival do Rio sem atrair maiores atenções, longe de provocar comoção popular, o abre-alas de Phil Morrison na direção cumpre à risca o que parece ser o apelo máximo de seu seleto público – o de ser uma pérola cinematográfica que a cultura underground talvez prefira esconder dentro de sua ostra, às escondidas do mais vulgar neanderthal hollywoodiano (sempre a posto para descascar o esmalte indie que cinge a obra com sua perversa acetona comercial). Bobagem. Junebug é nocaute na certa com luva de pelica e merece um público maior do que meia sala lotada em sessão quase única de festival cinematográfico.

Sunday, February 05, 2006

Sobre meiasplvs e outras mentiras honestas

This is my lie, lay me yours

Um lindo dia para pensar em coisas menos belas e mais sujas? A fim de pegar jacaré no mar de lama da sem-blogracice nossa de todo dia? À procura de um manancial wit para regar suas madrugadas de domingo? Senhoras e senhores do meu respeitáaaaavel público, mais um, mais um, mais um sim, sinhô! Mais um post sobre o mais do mesmo como nunca se viu antes! Pois foi seguindo os preceitos de Lavoisier, a velha raposa safada que dizia que nada se cria quando tudo pode se transformar – verité absolute adotada por todo rodízio de pizza – que decidi apertar o repeat para recoroar com uma salva de bifas aquela carpintaria dos caras-de-pau also known as “causa blogueira”.

Soon-to-be (de)formada em jornalismo, não é de espantar que seja – ou esteja a caminho de ser, ainda que com um péssimo senso de direção (o narcoléptico que adormece while sleeping, o jogador que comemora o gol contra) - catedrática na arte de escrever absolutamente nada sobre relativamente tudo. Mas sou passilarga. Vou além sendo aquém. E o que é um blog, o meu, o seu, o nosso blog senão um disse-que-disse ad eternum da completa falta do que dizer? Não compreendo lhufas daquilo que estou blábeando metade do tempo. Nos outros 45 minutos do jogo, tenho uma remota idéia – acho que é sobre queijo.

Inicialmente, vim aqui para escrever sobre um Tim Burton em particular. (Re)vi, gostei, nem tanto, e daí? Sou que nem Clarice em um ponto – terminar um pensamento é gritar Fla em prado de Flu, ou seja, um evento extraordinário no sentido mais lingüisticamente correto, pé-da-letra da palavra. E entonces que me percebo com o pé fincado de onde nunca saí – do começo. Por/para que/m escrevo? Quedê a platéia (I) – com seus tomates adestrados (II) à espera da primeira gafe autoral para serem lançados nesta blogueira de vos fala? Será que sequer a (I) mereço – ou os (II) mereço em primeiro lugar? Por que cobiçar uma ola grega quando se está jogando pelo time dos troianos? Ou ganhar uma standing ovation – por algo a mais que um decote e por um público maior que uma braguilha?

Enfim, por que-que essa endless blogueblásice deveria ser lida? Go figure. Não sei se divirto ninguém a não ser meu eu oblíquo – e ele está chapado a maior parte do tempo. No entanto, sou por ora uma espécie de baronesa de Münchhausen, sempre se puxando pelos cabelos com uma mão e escrevendo – teclando, sou muderna – as tais meiasplvs e mentiras honestas com a outra. Applause. E volte sempre.

Tuesday, January 24, 2006

Say goodnight to the lady

Eu perguntei, Short or long story? e aí que ele me fitou com um par de lasers azuis e falou uma coisa, eu não entendi, Repete, ele repetiu, Enfia no cu, o que é estranho, porque todo mundo sabe que ter uma longa estória no lugar mais recôndito da anatomia humana é tão agradável quanto um pierrô cantando Tom Jones num número de sapateado tcheco, então procrastinei a parvoíce e concluí pra eu mim mesma, Short it is, então disse que estava o deixando e ele quis saber o porquê e Pois é, eu retruquei que não dava um duvideodó para o quanto meu blog é capital, é inicial, é transcendental para todos os meus três leitores, mas que essa vida não era mais pra mim, que jogasse o primeiro teclado, levantasse o mouse, piscasse um emoticon quem nunca havia parado para pensar em querer mais, em escrever uma reportagem que faria Zaratrusta emudecer, uma monografia que faria Fredo ulular, um romance que faria Derrida dar pulinhos de júbilo e satisfação, e continuei continuei continuei a ir à baila, falei que minha vontade encheria um Madison Square Garden, que ela não cabia mais no espelho de cá, que havia espichado horrores depois da puberdade, mas acho que ele achou que eu estava meio chapada porque logo em seguida me deu um tapa na bunda e torceu o canto da boca, Vem pra cama, mulher, eu fui.

Sunday, January 01, 2006

Miss Sinclair (audasciously) presents

Madame Zelda: leva seu amor achado em três dias

Salve, salve, cambada. Como todo mundo sabe (ou ao menos deveria, se não vamos ter que começar tudo de novo), quanto mais se olha, menos se vê. Logo, para que ceder ao esforço de depilar? Portanto, em 2006, meus votos são pra que todo mundo cultive menos aparência e mais essência em sua vida: todos os mizifios deveriam dar um vade retro, um cruz que me credo, um chega-pra-lá-que-te-pego-pra-capar naquilo tudo que empaca seu dia, empata sua foda, atrasa sua vida, adia a hora agá e fecha as cortinas para o verdadeiro espetáculo que é o lessing the talk ‘n’ moring the action nessa vida que é bonita, é bonita e é bonita...

É bunda-lelê em Buckingham? Backpacking no cu do mundo (ou do bofe do 304)? Quinze minutos de infâmia entoando um “ei, Godár, vai tomar no cu!” no próximo Cinturão de Cinefilia abotoado pelos filisteus-de-uma-puta da stravaganza intelequituau contra-campista? Isso! Issa! Não temeis o dedo do Senhor a cutucar sua ferida, ó infiel (mas não se esqueça de assegurar a vaselina e amolecer a manteiga nos conformes do supositório filosófico de São Tomei, o apóstolo que só acreditava no que via a sua frente e principalmente as suas costas): now that we hung the oldman, que o velhinho foi bater as chuteiras, pendurar as botas, desamarrar os cadarços, que o calendário renovou e a esperança se enfiou no buraco negro novinho em trolha do medo, não se contente com pouco: pra que pedir um gole se você pode ter uma garrafa, uma adega, um vinheiro inteiro na Califuckórnia só pra chamar de seu?

Por isso, no ano novo que nos espera, take your youth and shove up the ass dessa gente que quer vestidos bonitos, champanha francesa, metáforas a granel. Nesse dois-mil-e-seis, não tenha medo de ser ha-ha sem graça, sem sal, sem paciência pra tudo aquilo que te dite a cartilha, que repita o modelito, que faça bonito sem fazer feio também. Chères e chéries, sejamos realistas: refaçamos o impossível. Go, baby, go, go. Porque lá no fundo real life é que nem o perfil da Barbra, não dá pra embonecar com maquiagem: melhor assumir a nareba e digerir o luxo e o lixo numa galgada só, sem purpurinar ou reciclar coisa alguma, porra nenhuma.

Sunday, December 11, 2005

So let your fists do the talking

Meu amigo, ser fudido é uma arte a qual muitos poucos dominam. Porque, merda por merda, qualquer babaca com um maçarico, uma fatia de queijo e uma lycra rosa é capaz de fazer. Ser fudido, no entanto, é uma coisa completamente diferente. Quase cósmica. Quiçá mágica. Acima de tudo – cármica. Para começo de conversa, ser um deles requer preparação física e sobretudo mental, de modo que esperar que o Pior dê as caras pelo menos sete vezes na semana se torne uma raison d’être tão festejada quanto dia de botox nos lábios da Angelina Jolie. Ser fudido é deixar de nutrir a esperança de que, em um dia festivo e alegrinho, quando alguém lá de cima ou cá de baixo te der um tapinha nas costas como se hoje fosse seu dia de sorte, seu canalha!, socos no estômago não se transformem em úlcera anal e as portas da esperança te levem a um lugar mais agradável que aquele banheiro sujo do motel mais chinfrim da beira de estrada. Carajo, Bandini. Esquece essa porra de primavera. 2005 foi um ano ruim. O ano que vem provavelmente também o será. Se der sorte, nada muda. A merda continua. Caso contrário, ela atinge o ventilador, metaforiza sua vida, literaliza seu destino, mancha tua lapela e cobra a conta da lavanderia. Meu amigo, ser fudido é uma escola que toma tempo para ser diplomada. É levar nas coxas e nas fuças uma vida em total descompasso com a sua vontade e compreender que, acima de tudo, se fuder não é para todos, mas é para sempre. And then, wham! É dar dó e marcha ré para suportar o mifafá que entoa o cântico desse artista de tempos coevos, um ser fadado a estancar como least but not last até que o raio o parta, a morte os separe e a história se repita (mas só quando ninguém estiver prestando atenção). A coisa consiste em desenvolver cujones (ou textículos, para os lixeratos) para se fuder com classe, com estilo, com ginga. Todo mundo pode ser um dos nossos, mas ninguém pode deixar de o ser. Porque se fuder é se fuder, mas ser fudido, meus caros, ser fudido é definitivamente outra coisa.

Saturday, November 19, 2005

Eu acho que é isso que eles chamam de blues

Aprendi muito com quem não sabia nada. Mais ainda com quem conhecia porra nenhuma. O filme ainda nem começou, os óculos-quadrados-de-armação-preta tomam aos poucos o contra-campo e algumas moçoilas metidas em rouptichas dentro do fora da moda discutem em godardês um Trufô sabor nouvelle-vague. Por que algumas pessoas preenchem o requisito de supermaravilhosas, enquanto outras você tem vontade de acaçapar no bolso esquerdo da calça de strecht de J-Lo pruma partida de dança das cadeiras?

Adestro a pulga atrás da orelha e me volto pra tela. No pontapé do começo: é francês e vai mudar a minha vida. No mesmo instante capto com o rabo do olho um garoto magrinho e inquieto, com ares de quem boghobou três listras para o seu casaco-espetáculo, e rimos à beça, talvez por perceber que a vida não tem sentido se você for a décima-quinta linha de uma biografia da Paris Hilton, mas principalmente ao descobrir que ainda mais improcedente, for the average man, seria dividir sua kitschnette com ecce homo tão high-profile na statusfera da boiolindiece cultural do Homo cinefilus (A Tangerina, in: Hang the writer, 2005, dadá).

Masscult? Indústria Cultural? Audiência infantilizada? Cultura de pastiche? Adorno de touquinha entonando aaaaaaaau bái mái céeelfff? Nem sombra, nem dúvida. Toda a ação se passa às favas com qualquer qüiproquó popular que não calhe de virar o darling da vez dessa inteligentzia de cabelo meticulosamente desgrenhado e cérebro mais ainda. Ou seja: explico. Porque é claro que todo homem se comporta de acordo com o que é esperado dele. Existem pessoas dotadas com a capacidade ímpar de chacoalhar ‘e’ rolar com uma leitura de Horkheimer e pular carniça ao mesmo tempo. Outras, por sua vez, permanecem condenadas a ter uma vida sexual.

Lá no fundo da caixola, a ponderação bate e fica pra jantar. Ainda que a contra-gosto, aceito a convidada e troco a magia a dois, o menáge a três e o diabo a quatro do cinéma de Godard e cia. pelo charme discret de la indieoisie esparramada do lado de cá da tela. Pois sim. Alguém deveria fazer uma religião para ela. Criar modalidade olímpica. Deduzir do imposto de renda. Sim, bâibe! She’s trying too hard. Quase engana com o suspensório do vovô, os sapatos Karl Marx e essa manha trendy, cult, unique, cool, marginal, hype, supermaravilhosa que nem te conto.

Nunca levo um intelectual a sério. O problema é que eles se levam. Que joguem a primeira pedra, a lenha, os buttons, o uísque sem gelo, o sal, a calça xadrex pro lado de lá e cabelos ao vento rebentando no frug da pseudo-intelectualidade. Que digam em setecentas laudas o que poderia ter sido dito em uma sílaba sem ponto-e-vírgula com exclamação – sem deixar faltar chá. Sob a ameaça das bofetadas da metalinguagem, a autora consente: era o fim do mundo como nós o conhecíamos. Quem sabe, cala. Quem não sabe, dá aula. Quem não sabe dar aula, cria um blógui. Ah, ecce homo!

Friday, October 28, 2005

Assim falou Zaccarias

Eram jogados 1987 e calhou de nascer (terceira) pessoa (do) singular . Para se largar na náite à procura de chão chão chão em qualquer programa de indie que topasse na sua frente, com duas pedras de gelo para acompanhar, por favor. À garota! desempedida e todas as vezes que uma xícara derrubou café na sua vida. Que tal: jornalismo com vírg,ulas, all-star surrado – pretû, de cano alto -, chorar pitangas, carreira empacotada, blues de domingo, torradeiras e aspargos, cabriolas e olhos de ressaca e de decalque e – ela era - algo. Assim assim. Um plágio. Um atentado ao pudor. Metáfora gastronômica com uma pitada de inconstância e duas doses de paradoxo para falartãorápido mas baixinho – psiu, ei! E ele disse: “Tira essa blusa, mocinha”, e então: “Tira essa blusa e vem curtir esse tal de róquenrôu!”

Quer saber?

Frankly, my dear, I don’t give a damn.

Wednesday, August 31, 2005

O que Allen diria a Virginia, livro I: se os dentistas fossem músicos

Caro G.,

Enfim, livre! As aulas acabaram e posso finalmente voltar a me dedicar à música. Você acredita que o meu professor de periodontia odontológica me reprovou só porque confundi a arcada inferior do Sr. Leônidas com a capa do novo CD do ...Trail of Dead? Ele é tão quadrado e burguês que às vezes me dá vontade de invadir sua casa e trocar todos os quadros de lugar! Estou certo que ele não reconheceria arte contemporânea nem se ela bochechasse na sua cara. Ah, meu caro F.! Estou cada vez mais desconfiado que o verdadeiro espírito artístico é privilégio de poucos – caso contrário, estou certo que meu paciente não teria se mostrado tão obtuso à idéia de extrair seus molares para pô-los como reticências no encarte do próximo disco. Mas que gentinha mais desprezível, e que mania irritante de usar sapatos! Evidente que, depois desse infeliz episódio, tive que ligar para mamãe e pedir que enviasse mais dinheiro, de modo que a Escova de Dente de Ouro pôde continuar os ensaios no estúdio sem que fosse preciso que eu chantageasse o estudante kantiano do sexto período sobre seus hábitos de sair por aí mexendo no imperativo categórico dos outros sem usar agulhas descartáveis – o que só não seria incômodo para um paciente que tivesse sido anestesiado com doses maciças de leitura frankfurtiana. Nossa primeira faixa, Canal no Panamá, já está em fase de produção e contará com a participação do Dr. L., o melhor dentista da região, que acionará seu motorzinho toda vez que nosso vocalista fingir dor de barriga no refrão. Se ao menos papai estivesse vivo, tenho certeza que ele sentiria muito orgulho de mim – e deixaria de fingir que não me conhece nas festas de família. Ah, Hegel.

F.

Wednesday, July 13, 2005

Ela é uma loura notável: boxa, dança, pula, rema


"Perca peso e ganhe um olho roxo. Pergunte-me como."

Monday, July 04, 2005

Morrer é uma questão de método

Poucas coisas na vida despertam tanto a curiosidade do homem quanto a morte, mas a verdade é que não se sabe muito sobre ela – exceto que ela gosta de se vestir de preto e que volta e meia pode ser vista entoando Another One Bites the Dust em bares de karaokê vitorianos (embora existam muitos poucos desses hoje em dia). Há, afinal, vida após a morte? E quanto a nossa alma, será ela imortal ou apenas megalomaníaca?

Existem várias teorias sobre a morte, mas absolutamente nenhuma delas explica a aplicação da Lei da Relatividade na gastronomia étnica de nosso país (talvez porque, nas palavras de um ilustre expoente da sociedade científica que não quis se identificar, "nós possamos ter-nos desviado da nossa linha de pesquisa em algum momento"). Como muitas pessoas já desconfiavam, bater as botas é, no fundo, o menor dos nossos problemas (contanto, naturalmente, que você se sinta bem com a cor do seu cadarço). O que acontece depois é, isso sim, o verdadeiro mistério. Para onde vamos, quanto tempo demora para chegar lá e que tipo de roupa devemos levar são perguntas que já passaram pela cabeça de todo mundo pelo menos uma vez na vida, seja ele o moribundo tísico, o atleta saudável ou a sua tia distante que lhe manda uma boneca todo Natal (embora você se chame Ernesto e tenha 26 anos há até bastante tempo).

Quem, afinal, paga a conta de luz para que você possa ter todo aquele espetáculo pirotécnico no fim do túnel que sempre lhe prometeram? Certamente não os seus parentes, que ainda estarão se desdobrando - literalmente, se você pertencer a uma família de contorcionistas - para pagar todo o ônus funerário de sua morte enquanto você toma banana daiquiris no céu (ou no inferno, caso você seja ateu, advogado ou simplesmente um pé-no-saco) e discute a arte da jardinagem filipina com Alfredo, um carteiro que faleceu no ano anterior graças a um sinistro ataque de fúria por parte de anões belgas que andavam se sentindo marginalizados pela sociedade capitalista e opressora. Quanto ao seu plano de saúde, como pedir para que ele pague por sua luz no fim do túnel se ele sequer cobria suas despesas dentárias quando você estava vivo? Deus, a opção que para muitos poderia ser apontada como a mais plausível e justa (talvez porque Ele seja a única entidade sobrenatural que tenha American Express, embora haja os que digam que é puro exibicionismo de Sua parte), tampouco: com tantas guerras, enchentes e penteados dos anos 80 mundo afora para serem enfrentados, todo o trabalho burocrático não resistirá muito antes de ser relegado para as instâncias inferiores.

Mas quem são essas instâncias inferiores, uma pessoa razoável poderia questionar (ou simplesmente pular o assunto e, no lugar, começar a fazer um curso de estenografia por correspondência, uma vez que ela é uma pessoa razoável esclarecida e faz o que bem entender). Para a Grécia Antiga, elas se chamavam Cloto, Laquesis e Atropos e eram conhecidas como as Parcas, figuras mitológicas que controlavam os fios da vida e decidiam quem morria ou não. A Grécia Moderna já não pensa mais assim, embora continue faturando horrores no mercado têxtil temático.

Já grande parte do Ocidente gosta de acreditar que os anjos são os funcionários públicos do Paraíso. Daí inclusive teria originado a idéia de anjo-da-guarda: enquanto Deus se ocuparia com tarefas de escala mais global – como eras glaciais e chuvas que duravam 40 dias e 40 noites (o que era uma grande sacanagem com todos aqueles que não detinham o monopólio das construtoras de arcas) -, os anjos estariam empenhados numa missão mais individual e menos sensacionalista. Todavia, a imagem pulcra e nobre que temos do exército do Senhor é altamente questionada pelos Letrismo, uma escola histórica pouco afamada que crê que a Bíblia nada mais foi do que uma sopa de letrinhas que Deus acidentalmente deixou derramar durante uma briga com Zeus a respeito de marcas e patentes. Para os letristas, apesar da versão oficial nos contar que Deus teria descansado no sétimo dia, a verdade seria que, irritados com a fama de que passavam o dia tocando harpas que seria espalhada num futuro longínquo pelo homem – a mais recente e mimada criação divina -, os anjos teriam feito a primeira greve da história e se recusado a completar tarefas como a paz mundial e o Grand Canyon. (Rezam as lendas que, como punição, a ira divina teria lhes tirado o sexo e ainda ganho uma fortuna ao patentear os bonecos Ken.)
A morte varia de cultura para cultura, de época para época e de pessoa para pessoa, não obstante seus contínuos esforços para entrar na era da globalização. Não podemos, por exemplo, tentar entender como um aristocrata via a morte em plena Revolução Francesa, embora alguns relatos de sobreviventes nos digam que ela parecia um pouco afiada demais para seus pescoços. Até podemos andar pelo vale da sombra da morte sem temermos mal algum, mas nossos passos nunca serão iguais aos de outra pessoa. Para uns dolorosa, para outros, uma bazófia; o começo para um pai e o fim para um filho; uma redenção ou um pesadelo: a morte é uma essência que nem a pena dos mais afiados escritores conseguiram transpor integralmente para o papel (embora um mico adestrado tenha chegado muito perto uma vez, mas isso não passou de uma assombrosa coincidência).

Sunday, July 03, 2005

Deus, nozes e outras considerações

No início, Deus criou o céu e a terra e, talvez por decidir que um mundo sem jazz, abridor de lata e McLanche Feliz não teria graça nenhuma, resolveu criar o ser humano. É verdade que sua intenção inicial era colocar-nos acima do bem e do mal, mas esse andar já estava ocupado pelo departamento de Assuntos Infernais e, desde então, a sala do almoxarifado do sistema solar passou a ser chamada de Terra. Desde então, entediado das trevas, Deus ordenou que se fizesse luz, mas por conta da temporada de apagões pela qual o universo no período, Ele teve que criar o dia e, como medida econômica, a noite. Logo depois, interessado em sediar os jogos olímpicos da galáxia (que aconteciam de quatro em quatro anos-luz), Deus tentou agilizar o projeto e acabar a Terra em sete dias, mas o Comitê Olímpico Lácteo achou que ainda não havia estrutura suficiente para um evento de tamanha dimensão, até porque havia muitos vulcões em ativa na época e um dos avaliadores tinha alergia a enxofre.

A raça humana, como todos sabem, é a espécie mais inteligente do planeta, uma vez que é a única espécie capaz de refletir sobre o seu próprio reflexo, falar da própria fala e se conscientizar acerca da própria consciência, e isso tudo enquanto combina a cor da meia com a da gravata. E mais: a humanidade gosta de debater sobre física quântica, falar sobre ela na terceira pessoa e, sempre que pode, faz questão de jogar na cara dos outros animais o tal do lance dos polegares opositores (o que, modéstia dEle à parte, foi essencial para que o homem pudesse manusear ferramentas, jogar fliperamas e estourar plásticos-bolha). Inventamos o macarrão instantâneo, os programas de auditório e gostamos de tomar sopa com colher, embora estudos já tenham comprovado que o canudo, nesse caso, é muito mais apropriado para evitar queimaduras na boca.

Deus que nos fez à sua imagem e semelhança, o que torna um tanto estranho o fato de alguns de nós parecermos com Janet Reno ou com o Sr. Madruga. Concedeu-nos o livre arbítrio para que pudéssemos exercer nosso pleno direito de implantar ditaduras, entupir-nos de carboidratos ou simplesmente andar na rua com uma caixa com os dizeres "cabeça humana", mas só pela graça disso. Contudo, nada disso tira d’Ele o Cinturão de Criador, O Princípio de Todas as Coisas, o Onisciente, Onipresente, Onipotente e Tudo o Mais. Afinal, estamos falando de um cara que já acumulou em sua estante uma quantidade respeitável de prêmios, como o Grande Prêmio de efeitos especiais por todas as Grandes Guerras, a melhor intervenção divina no Festival Internacional de Milagres com o cancelamento de Baywatch e que, nos tempos vagos, ainda concorreu para Miss Divindade Via Láctea (que teria ganhado de Alá, se não fosse por aquelas duas polegadas extras no quadril).

Cara de muitos amigos, ainda mais inimigos e quatro ou cinco simpatizantes, Deus é tema de um sem-fim de fãs-clubes, sociedades secretas, grupos terroristas e, numa cidadezinha mineira, ainda dá o nome para um pequeno sex-shop atrás da vídeo-locadora da cidade. Deus é, de fato, onipresente: está no pão nosso de cada dia, na maioria das letras de pagode e no discurso de tudo quanto é político às vésperas de eleição. É verdade que, ao longo da nossa história, Deus já morreu várias vezes e de várias formas, inclusive de tanto rir com cada nova tentativa do homem em tentar achar o sentido da vida (que Ele mesmo não sabe qual é, embora tenha, nos últimos séculos, desenvolvido uma teoria de que possa ser o fato de milhões de árvores no mundo serem plantadas acidentalmente por esquilos que enterram suas nozes e não lembram onde eles as escondem). Ainda hoje muitos de nós perguntarmos se Deus realmente existe ou se Ele seria uma invenção que a humanidade criou para aliviar seu profundo sentimento de desamparo existencial, uma vez que vivemos num mundo com tanta miséria, unhas quebradas e homens que se chamam Astrogildo. Deus já foi sepultado pelos positivistas, rejeitado pelos niilistas e transformado em caixinha de dízimos pela Igreja Universal - e isso sem falar nos agnósticos, que andaram espalhando por aí que Deus teve um filho com Britney Spears só para difamar Sua imagem -, mas ainda assim continua, trocadilhos à parte, com os índices de popularidade lá nos céus. O fato é que a humanidade ainda não está preparada para se livrar d’Ele de uma vez por todas, até porque o ateísmo não tem nem tanta graça, nem tantos feriados. Ainda teremos Sua presença garantida por muito tempo em nossa vida. Ícone pop por excelência, Deus estará sempre conosco no planeta que nos arrendou para que reinemos soberanos, até que um dia um garoto canadense esqueça de dar a descarga na escola e, por algum motivo fora de qualquer compreensão possível, este fato desencadeie uma cadeia altamente improvável de acontecimentos que resultará na invasão do planeta pela raça alienígena Ordnave, que detestará cada pedacinho de matéria terrestre, com exceção de pretzels (que os lembrariam da forma de seu planeta de origem) e do cabelo da Cher (para isso, não haveria qualquer tipo de explicação lógica). Amém.

Sunday, June 19, 2005

Hang the writer

Um texto que não deveria ter sido, em 553 palavras.
O mais provável é que o Homo cinefilium tenha nascido nos anos 70 como possível resultado do cruzamento entre intelectuais de esquerda da época, que eram conhecidos por praticar a Revolução Sexual pelo menos três vezes ao dia e quiçá utilizar a palavra “quiçá” sempre que possível. Fruto de uma formação familiar alternativa porém rigorosa, esta curiosa espécime foi desde cedo orientada a seguir o caminho das Belas Artes, embora as Feias Artes, as Ainda Mais Feias Artes e as Realmente Assustadoras Artes costumassem fazer muito mais sucesso entre o público feminino da época - êxito em parte garantido pela performance deliciosamente contemporânea de Flaubert que o trio apresentava em bares da vizinhança, numa inusitada releitura nietzschiniana em que Madame Bovary mata Deus com uma letra minúscula e se casa com seu cavalo de corrida no final.

Evidente que, a partir de um certo ponto, gostar de cinema passa a ser prova inconteste da superioridade intelectual de um sobre outrem. Ora, o raciocínio, ao menos à primeira vista, parece óbvio, uma vez que, para a maioria das pessoas, nada parece durar tanto quanto um filme iraniano (embora um jogo de xadrez entre um homem e sua dupla personalidade já tenha confundido alguns teóricos do assunto no passado). Tudo bem que a maior parte da humanidade não consegue ver um filme de Godard sem deixar que sua mente se distraia com pensamentos como contas atrasadas, inversão térmica ou dominação global, mas o que isso deveria provar?

Certamente nada com un peu de tudo. Não obstante haja muito cinéfilo por aí se vendendo como a bolacha mais recheada do pacote, o simples fato de gostar de gostar de cinema não faz ninguém desabrochar em fina flor do intelectum brasileiro de uma hora para outra. Não é nem tão simples, nem tão fácil assim. É preciso muito mais. Ou menos. Menos arrogância, menos pedantismo e, definitivamente, menos certezas de que a fatalidade do mundo cabe nunca casca de noz, uma vez que um ônibus 174 começa tão-somente a esboçar a dimensão do problema.

Pois: as aparências não têm outra função se não a de enganar o próprio e o próximo, não obstante alguns psiquiatras já tenham alertado que, no fundo, tudo o que elas querem é um pouco de atenção. Todo mundo é o que é, com a exceção de que poderia muito bem ser outra coisa. Logo, um homem não deveria jamais ser julgado simplesmente pelo que vê, pensa ou veste (a não ser que ele faça os três muito mal).

É mais seguro ser pseudo-intelectual ou ignaro confesso? Nenhum dos dois, se você tem quarenta anos, usa suspensórios e mora na casa da sua mãe. É verdade que poucas coisas são tão dolorosas para um cinéfilo quanto constatar que existe vida inteligente fora das salas Espaço Unibanco - principalmente se ela costumava roubar o seu lanche na hora do recreio. Se existem jeitos mais preguiçosos e menos onerosos de catalogar a inteligência de alguém, a história é completamente diferente: tratar a Sétima Arte como suplemento vitamínico para o QI é um argumento que peca tanto pela deficiência quanto pela leviandade de suas pretensões. Melhor tomar suco de laranja mecânica ou ouvir Mozart na barriga da mãe. Aconselho a sinfonia nº40 em sol menor. Inteligência garantida ou o seu dinheiro de volta. Palavra de Adorno.