Sunday, September 09, 2007

Lôra Maria

Se chama Maria. Me chama Carlos. A não ser quando sua língua passeia pelos meus bagos. Como shopping. Voltas e voltas no mesmo lugar. Uma beleza. Aí é Cacá. De resto é sempre Carlos. Carlos. Carlos não trata bem o papagaio dela, reclama. Está sempre reclamando de alguma coisa. Diz que gosta de falar do útero do fundo da alma, que não gosta dessa gente que mede palavras como quem ajusta vestido Prada. Gostaria de ouvir menos sua voz, mas não falo nada. Gosto da garota. Cabelos louros, bem louros, na nuca. Ontem foi-se um mês desde que mudou para o prédio. 604. Gosto dela o bastante para aturar sua voz, e a da ave odiosa. Não entendo o que poderia querer com um papagaio. Não pergunto. Ela explica mesmo assim. Explica que, no século 16, depois de fumarem muito pau-brasil, uns caras decidiram que o paradeiro do Éden era a América do Sul. Tinham mapa, previsões e uma idéia na cabeça: PAPAGAIOS.


Sento, ela no meu colo. Encaixa. A história é esta,


No início era assim. Era o verbo. Os animais faziam mais que correr livremente pelos prados verdes e frescos do paraíso, a bolinar Eva enquanto Adão se ocupava em desacreditar o Letrismo – escola histórica hoje pouco afamada para a qual a Bíblia nada mais foi do que uma sopa de letrinhas que Deus derramou durante uma briga com Lúcifer, o anjo mais punheteiro da confraria, líder da primeira greve da história ao se recusar a completar tarefas como a paz mundial, o Grand Canyon e a depilação da Cláudia Ohana. Antes de imundo, o mundo falava. Toda a Tropa de Elite do Senhor era dotada de perfeita capacidade vocal para discutir vida, esperança e amor ao próximo, ou ligar para Alá e mandá-Lo despachar o corão via cudex. Até o dia em que o saco divino encheu. Expulsou as crianças de casa. Deliberou o fim do falatório no seu zoológico pessoal. E o resto é história. Má história. A História dos Homens.


Milênios depois da Grande Sacanagem, a humanidade continua condenada. Assim Maria conta. Acrescenta que os papagaios, para os nossos chapados do século 16, representavam redenção. Redenção porque conservaram o dom da fala, e, no reino animal, onde há fala, há paraíso. Assim Maria continua: no Brasil, tinhamos pencas deles. A história parece empolgá-la. Excita-la. Posso sentir e a ajeito em meu colo. Num instante visualizo sua buceta se abrindo para mim, emoldurada por lâmpadas em néon que imitam um papagaio, Vegas style. Nunca acreditei na existência do paraíso, mas, por via da dúvidas, enfiei dois dedinhos para conferir se ele andava mesmo pelo Brasil. 604. Ela gemeu. Lôro ecoou. Tive vontade de mandar os dois calarem a boca, mas não fiz nada.

Friday, August 17, 2007

Thursday, August 02, 2007

Friday, February 23, 2007

Matou a família e foi ao cinerama

Há quem diga que aqueles foram o melhor de todos os tempos, o pior de todos os tempos. Há quem diga que éramos jovens, calouros e, redundantemente, todos estúpidos. Que não pintávamos cabelo. Platinado. Que não fumávamos haxixe. Ainda. Que não discutíamos a filmografia coreana de 1934. Sundance. Que foram vacas profanas, que foram vacas sagradas. Vacas loucas. Nunca gordas. Há quem diga que o tempo, embora seja o melhor professor, acaba matando todos os seus alunos. Talvez mate. Torture e mate. Pode-se morrer de ostracismo ou de indigestão, não importa. Como aquele pastel de carne seca com catupiry que transforma sua aorta na Av. Brasil parando para um desfile da Victoria’s Secret em plena hora do rush. Algumas velas acesas, o corpo estirado na calçada, dois ou três olhares mais curiosos. Morte é morte. Matada ou morrida.

Por um bom tempo, achei que do Cinerama não se podia esperar nem mais, nem menos. Assim em sua dose cowboy, sem gelo, não haveria câmara criogênica que livrasse nosso projeto de cair de cabeça (até o último fio) e sola na verdadeira São Silvestre – lycra rosa, em pas de deux, 100m com barreira – rumo ao Vale da Morte. Primeira parada. Aqui mesmo, motorista, e tenha um bom dia. Afinal de contas, a idéia de cine que se tinha em mente, desde então, já nascera com um pé enfiado numa cavidade muito particular onde o sol não bate.

A cova.

Um cineclube? Não se tratava de tudo isso. Não se tratava apenas disso. Do jeito que voltou (third time around) ao mundo, o Cinerama não chegou a contar com um cenário pra lá de animador. O rendimento das reuniões, regadas a cerva do Seu Manoel, esvaía-se com a mesma rapidez da primeira rodada da mesa. Mini-cartazes em P&B, formato a4 e design tão atraente quanto a gaveta de lingerie de Ruth Cardoso funcionavam com a eficácia de um prólogo shakesperiano confiado ao potencial dramático de Fernanda Lima (“Romeu e Julieta 4ever – Uma História de Amor”, 2007, Brasil”). Os filmes, escolhidos a esmo profissional, ora lotavam a sala com o cacife culturale de François Truffaut (Jules et Jim), ora dividiam espaço com as duas moscas e os três gatos pingados que compareciam para conferir o mondo trasho de Álex de la Iglesia (A Comunidade).

De fato, nem tudo eram flores. Quando o eram, havia os espinhos. Ou o fedor. Ou davam alergia. Ou enfeitavam a lapela do Tony Ramos. Jardineiros da Babilônia ecoína que jamais fomos, hoje creio que conseguimos podar, com o nosso amadorismo, o verdadeiro Crime Ferpeito. Se não se tratava de um legítimo Caso de Amor, o Cinerama era como se fosse aquela amante de toda uma vida. Ao menos uma vez por semana, toda uma noite era dedicado aos seus deleite e capricho – e na semana seguinte, nunca deixávamos de voltar. A cada começo de semestre, a paixão era renovada com uma caixa de bombons que vinha em forma de calouros fresquinhos e achocolatados, todos saídos da Oficina do Cinerama, oferecida na Semana de Calouros desde o último semestre de 2005. De lá, somaram-se à equipe Amanda Meirinho (2005/02), Isabel Stein (2006/01), Caroline Gomes (2006/01) e Rodrigo Vaz (2006/02).

Se por um lado o Cinerama só fez ganhar com a cooptação de novos integrantes, o gradual desfalque na velha guarda não passou despercebido. Reativado em maio de 2005 com A Estrada Perdida de David Lynch, o projeto contou, no início, com a participação de Ricardo Senra, Bruno Boghossian e Ana Carolina Bento Ribeiro, além da módica escritora que vos fala, todos nativos do sítio arqueológico que é hoje a leva de calouros de 2004/01. Havia ainda a presença da veteraníssima Maria Flor Brazil (2003/02), responsável pela segunda geração do Cinerama – a qual já havia levado nós quatro, então calouros, à sala capenga do PACC para O Anjo Exterminador de Buñuel, entre outros.

O que mudou desde então? Ao primeiro fotograma a se desembaraçar na tela, o espectador médio dá um gole em sua coca-cola e, de uma só galfada, empunha pipoca o suficiente para fazer de uma pré-estréia com Hillary Duff a maior empregadora de catadores de milho da costa oeste. Com um cineclube que se propõe como alternativa ao filão pop de grupos como o Cinemark, tudo muda. Pra pior. Mas no melhor dos sentidos (ou seria das intenções?). No caso do Cinerama em particular, o público permanece tão oscilante quanto a certidão de casamento de Elizabeth Taylor. Os cartazes rudimentares, reproduzidos de graça pela xerox de qualidade duvidosa do C.A., acabam passando batido na selva de celulose que se entranha por corredores, cortiças ou qualquer superfície lisa dando sopa na faculdade. As agruras não são poucas. No entanto, tampouco a vontade de deixar coalhar o leite derramado.

É preciso, pois, muito mais que um botão e um dedo para apertá-lo para dar início a uma sessão de cinema. Com a adição do novo bolsista no último processo de seleção, Diogo Cunha (2004/02), o projeto ganhou fôlego olímpico. Em 2007, o Cinerama quer fazer da sua terceira geração também a definitiva. É claro que sessão vazia dá aflição. Imagino que, ao menos uma vez na vida, todos os grandes cineclubes já tenham passado por tamanho suplício. Como barulhinho de lixa. Giz no quadro-negro. Punheta no sofá da Hebe. Uma gracinha. Só que mais para quem faz do que para quem vê.

Tuesday, January 30, 2007

E ela se chamava

Os cabelos continuavam os mesmos. Foi a primeira coisa que notou. Os cabelos e as botas. De couro. Vermelho. Todo o resto era diferente. A boca era diferente. Os ossinhos da clavícula. O tumor. Agora se chamava Carlos Alfonso, 39, não duraria. E como poderia? Já teve maiores. Mais velhos. Alguns malignos. Conhecia-a. Bem. Demais, até. Falamos sobre coisas sérias (fez careta) e tirei doce da criança. Smoothly. O pobre diabo era eu. Tudo. O barulhinho do salto alto datilografando o chão. Tec tec tec, tec. Tudo era diferente. O rebolado. Do rabo. Do cabelo (que era igual). Tinha os dois pés no chão. E pouco tempo fez, também duas mãos. Do rebolado. O rabo. Quarto 205. Pelo cabelo. O nome dela é Maria. Prazer, Maria.

Saturday, January 27, 2007

Ivan, o Terrível

No Rio, nove entre dez favelados são quinze. Palavra de Lessa.

Saturday, January 13, 2007

Continua, ela disse

Foi expulso de casa e deu uma festa para comemorar. Chamou alguns amigos, juntou a cerveja e comprou o pó, mas sentiu que faltava alguma coisa. Ligou para a Ritinha. O dia era: terça de. Manhã. Férias. A cada acrobacia nas cordas vocais da garota, tornava-se mais e mais consciente disso. Provavelmente, ela estaria curtindo uma senhora ressaca no exato momento em que cogitava se era possível transmitir o foda-se para o outro lado da linha usando apenas o poder da mente e talco polvilho. Há momentos na vida em que tudo parece conspirar a seu favor. Nenhuma terça de manhã em plena férias jamais conseguiu se qualificar como um deles.

- Ritinha. É o Paco.
- Ahhhhifjskc...
- Tá acordada? Escuta. A velha finalmente chutou meus córneos pra fora do apê e eu pensei num esqueminha pra celebrar, uma festinha, sei lá.
- Afffjkcmnskmx...
- Olha, preciso saber se sua mãe vai precisar do carro à noite.

A louraça ajeitou a calcinha. No cu. E bocejou sono pra fora – se recompôs (na medida do possível).

- A única coisa que minha mãe precisa à noite é do Prozac dela.
- Perfeito. Me pega às 19h?
- Tanto faz.

19h07 ela já estava lá. Não era daquelas mulheres que atrasavam, tinham corrimento e discutiam a dívida externa do Djibuti. Não, a Ritinha era outra coisa. Não sabia falar com gente. Nunca soube. Assim como Godard, sempre foi fã de si mesma. Mas era muito mais gostosa. Além do mais, gostava de astrologia e de tudo a qualquer coisa dependia se Vênus isso ou Júpiter aquilo. De boquete na praia a triplo assassinato. Não entendia porra nenhuma de nada do que ela dizia e, quando riscaram Plutão do mapa, pensou, “menos um planeta de merda pra encher o meu saco”. Eight to go.

Pararam em frente à loja dos Mímicos Retardados do Alabama, três baianos, uma enfermeira maneta e quatro macacos adestrados. Pediram para falar com o gerente. Um cara gordo com uma pochete escrota, jogada pro lado e soterrada por banha, saiu de trás do balcão. Não era o gerente. Um anão belga se apresentou. Com um duplo twist carpado. Ainda não era o gerente. Um Mímico Retardado do Alabama enfim anunciou: eu sou o gerente. Não era o caso. Paco e Ritinha começaram a se irritar e saíram da loja. Contrataram um mágico.

“Não que você se importe. Não que eu me importe. Não creio que ninguém no mundo se interesse pela minha história. E, Deus, tenho certeza que se tivesse optado pelas Escolhas Certas, o Carro Certo, a Foda Certa, o Emprego Certo, as coisas não seriam diferentes. Talvez seja aquela velha história do foda-se. Talvez algumas pessoas nasçam desgraçadas. Eu poderia estar roubando. Eu poderia estar pedindo. Mas eu estou aqui, fazendo mágica... e nem criança tem nessa porra. Só um bando de viadinhos chapados. Que porra é essa, afinal?”

Três pessoas assistiam ao espetáculo. Uma delas, paralíptica, colocada ali de sacanagem pelos amigos, alternava “seus filhas da puta!” com “me tirem daqui!”, e finalmente “foda-se, viver não vale a pena”. Não falou mais nada. O mágico anunciou seu próximo número, Aquele em que a gilete corta meu pulso e eu tiro o pau da cartola. Ha-ha-ha, umas gordas riram mas Ritinha virou os olhos. Uma da matina e a festa já estava uma merda.

- Legal, seu retardado. Contratou um mágico maníaco-depressivo.
- E o que você queria?
- Você só tem amigos escrotos. Você é escroto. Aposto que você e seus amigos escrotos se orgulhavam de passar as tardes fazendo campeonato de punheta com a foto da tua mãe e depois ligavam para a Globo e mandavam o Chacrinha tomar no cu. Eu vou embora.
- Siga o seu coração.

A garota olhou pra ele com algo próximo de Carinho Incondicional e Desprezo Absoluto Pela Raça Humana. Lá fora, as coisas não estavam melhores. A cerveja estava mais quente que o interior das calças do Michael Jackson no especial de fim de ano da Unicef. O mágico colocou a gola pra fora, o pau pra dentro. Uma das gordas vaiou. Outra delas se conteve com um uivinho de protesto.

Odiava quando ela fazia essa cara. De quem entende melhor um húngaro narrando uma partida de críquete em latim arcaico do que aquelas palavras. Pousou a mão dela em cima do seu pau. Vôo rasante. Agora faltava pouco. Quase duro. Pronto para uma standing ovation. Vai, Ritinha. Colabora, Ritinha. Assim, Ritinha. A festa estava só começando. peganomeupau, Pega. Seu toque era como se dissesse: step aside, ladies, today this lad is all mine.

- A gente não começou nada.
- E se tivesse começado?
- Então eu estaria terminando.

Eh, Ritinha, ah, Ritinha. E não adianta fazer balanço dos anteriores. Foram bons, foram ótimos, foram maravilhosos, foram superfantásticos. Step aside, ladies. Olhem para ela. Olhou para mim. Riu e ri também mas ela o fez por último. Imaginei se no dia seguinte os jornais dariam destaque à Incrível loura que foi embora para seguir seu coração, a imprensa é uma filha e uma puta.

Já o meu segui até o banheiro dos fundos, Playboy, página 17. Me fudi.

Thursday, November 02, 2006

A Hora e a Vez de Billy Nayer


Dizem por aí que a cidade de Nova York nunca dorme. Não duvido que, pra qualquer filme de Antonioni, ela abra uma exceção. Apesar de todo o oba-oba a respeito da competência do signor do neo-realismo italiano, admito haver quem faça – e fale – melhor, o que pode ser comprovado numa das melhores entrevistas não lidas de todos os tempos, dada por Orson Welles ao (bem menos) célebre diretor Peter Bogdanovich.

Na conversa, Welles, já um filho da puta de respeito na versão bigger, larger and uncut dos seus anos finais, mete o pau em Godard, a trolha na nouvelle vague e respinga alguma coisa em toda essa borogodagem intelequituau que, na dúvida, opta sempre pela consagração mais irritante – daí o nariz torcido do entrevistado para os 122 minutos mais esquecíveis de sua vida com um filme de Michelangelo. De botar pra fuder, não? Pois – nas palavras do próprio – a história é a seguinte:

"Um dos motivos de eu me entediar tanto com Antonioni – aquela coisa de achar que uma boa tomada vai ficar melhor ainda se você continuar olhando para ela. Ele lhe dá um plano aberto de alguém andando pela rua, da cabeça aos pés. E você pensa: 'Bom, ele não vai levar essa mulher até o fim da rua'. Mas leva. Aí a mulher some e você continua olhando a rua depois de ela ter sumido".

Ora, ter alguém do peso de Orson chamando de cuzão a darlinga de toda essa cambada que venera (quase sempre sem saber o porquê) tudo aquilo capaz de provocar a maior concentração de bocejos por metro quadrado desde o último relatório sexual de Rivers Cuomo é mais do que animador. É gozante. E se a essa altura seja bem provável que você deva estar se perguntando por que consumi quatro parágrafos dessa resenha sem tocar uma vez sequer no filme que abriu a lauda em primeiro lugar, adianto: as razões são múltiplas.

Primeiro porque, mais do que uma obrigação, é sempre um prazer se valer de qualquer pretexto para incinerar o filme do italiano. A unanimidade, já dizia Nelson, é burra. Antonioni, por sua vez, é só chato. Não que o ritmo lento de suas obras seja a única coisa que me incomoda. Não é por aí. É pelo contrário. Eu aprecio Pasolini. Não me entediei com Last Days. Transaria com a Sandy. Eu gosto de lento. Eu curto lento. The American Astronaut, apesar de musical, não é nenhum Moulin Rouge, por exemplo: trocentas algumas-coisas pipocando na tela com o tipo de urgência que transfere o espectador à pele de um garoto de 14 anos pegando no seu primeiro peitinho.

As coisas tomam tempo – o quanto for necessário – para fazer sentido – e esse quase sempre é rigorosamente nenhum. Cenas absolutamente desconexas a uma simbologia ou a uma razão-de-ser criam uma aura niilista perita em passar a impressão de que, ao longo dos 91 minutos de filme, o diretor está tirando uma com a sua cara, e só. Se entrar no clima dele, beleza. Rio Yeti, por exemplo, é uma das cenas mais geniais da história do cinema. Tudo é nonsense. Nada faz sentido. Ou não. Como nos melhores Herzogues.

Também não é nenhum aspirante à Máquina Mortífera XVIII. As coisas não acontecem tudoaomesmotempoagora e a câmera se sente livre para prolongar momentos que fariam qualquer editor de Hollywood arrancar os cabelos – do cara ao lado. Aquela coisa de achar que uma boa tomada vai ficar melhor ainda se você continuar olhando para ela. Nosso filme, as a matter of fact, tem cenas do gênero. Mas não 94 anos. E muito menos pretensão maior para elas. Basta.

Em suma, o desconhecido Cory McAbee é quase tudo o que Antonioni não é. A medida perfeita. E, exatamente por isso, seríssimo candidato à melhor coisa que ainda não aconteceu para o cinema desde 1887 (um ano antes do booty shake contest rodado por Louis de Prince, que antecedeu os Lumière e se fundou como o primeiro feto prematuro da sétima arte). É uma pena – ou uma vantagem, sempre é incerto – que seja tão pouco conhecido, mesmo nos circuitos alternativos.

Até porque, de causar maior burburinho nos bastidores do palco alternativo, é verdade que Astronaut, seu longa de estréia, passou longe. Por pouco. Exibido no Sundance de 2001, competiu com queridinhos que, para muitos, até hoje dizem respeito ao que há de mais di-vi-no no übercult way of life, como Memento e Donnie Darko. Os três, aliás, comendo juntos da poeira da derrota levantada pelo vencedor nas categorias drama e diretor, Hedwig and the Angry Inch, o badaladinho musicult esquisitofrênico de John Cameron Mitchell.

What the fuckelse is new?
Há diversas formas de se começar uma crítica para The American Astronaut. Umas delas é descrever (ou morrer tentanto) o sci-fi spaghetti musical protagonizado por Samuel Curtis, um terráqueo contrabandista que recebe a missão de transportar um carregamento valiosíssimo para Vênus – um planeta habitado por toda uma raça de mulheres e um só homem para saciar seu apetite sexual: The Boy Who Actually Saw a Woman’s Breast, garotão de 15 anos que serve de inspiração para os trabalhadores de um planeta onde o contato com o sexo oposto é tão inimaginável quanto uma lua de mel vitoriana.

É possível, ainda, destacar o fabuloso trabalho da Billy Nayer Show, banda do diretor Cory McAbee que assina os números musicais (que, à moda da No Smoking Orchestra de Emir Kusturica, passa a refrescante impressão de algo enfim original por aí com performances como Girl With the Vagina Made of Glass). Quem sabe apenas o fabuloso trabalho do diretor Cory McAbee – ele próprio uma espécie de Orson Welles reloaded, um verdadeiro faz-tudo – e tudo bem pra carái – quando se trata da sua arte: escreve, produz, atua, dirige e traz (ou rouba) seu amor perdido em três dias, enfim, coisa pra caceta e do caceta.

Eu não sei escrever críticas. Nunca soube, sempre quis e tenho raiva de quem sabe. Sintetizar pensamento é foda – quatro laudas depois, you got the point. Mais foda ainda de se sintetizar, no entanto, é tudo aquilo que senti depois de trocênios alimentando a certeza de que cinema bom era isso aí, bom e enterrado no passado, enchendo as fuças de uísque com Welles, Leone e cia no bar mais capenga do Cemitério dos Fodões. Talvez The American Astronaut não seja tudo isso. Mas pode ser, sem parecer força a barra para tanto. Ao contrário da maioria por aí.

Ser indie – de independente, na origem correta e largamente abandonada do termo – acaba sendo um triste pleonasmo para os freqüentadores de uma statusfera alternativa pouco original, sempre à espera de um messias (que descerá à Terra lendo Kant e ficando doidão de pó após uns belos tapinhas na bunda da Baby Spice) para registrar o que é cool ou não numa tábua de novos mandamentos, cujo único valor digno de mérito é servir de base para alinhar suas carreiras.
Suponhamos que o average indie film maker produza 19 filmes por ano. O mais perto que ele chegou de Jim Jarmusch foi devorando um McWenders na 4º mesa à esquerda na lanchonete bacana de Sundance. Não é de todo fácil ser Jim. Não basta mostrar a bunda pro sistema. Até porque entre mostrar e dar a diferença é pouca. Cory não é Jim, mas é tão bom quanto (hesito em dizer melhor, mas WTF?). Cory é Cory. Outro à parte. Da parte boa. Cory é dos bons, doutor, pode confiar.

Woke up desthinking of you

que papo mais neo-cabeça.

Sunday, October 22, 2006

Introdução à História do Cinema

( ou Tudo o que Você Nunca Quis Saber Sobre Cinema Europeu e Sempre Teve Coragem de Não Perguntar )
Primeiro módulo na formação de um cinéfilo porém de suma importância para o resto do curso, uma vez que aqui se dará seu primeiro contato real com o mundo do cinema a partir de uma série de (re)flexões acadêmicas com as mais conceituadas escolas ôropéias de retaguarda audiovisual. Já na primeira aula, ensinar-se-á como o cinema europeu se debruçou nos clichês mais inusitados e nos lugares-comuns menos visitados para compor um repertório fílmico com um padrão altíssimo de qualidade intelectual e, de quebra, alçar nomes como John-Luke Godár e Frank Trufô à Imortalidade, um lugar especialmente agradável para quem está em dia com o aluguel e satisfeito com a cor de seu cabelo.

O caixeiro-viajante é outra personagem recorrente na cinematografia européia a ser radiografada por aqui: figuras muito populares em países altamente impopulares, eles imprimiram forte fascínio em toda uma geração de artistas, literatos e vendedores de enciclopédia. Suas histórias de vida já inspiraram tramas inesquecíveis da cinemateca européia, como os épicos “E o Correio Levou...” e “Minha Vida de Inseto”, ambos dirigidos por Alfred E. Newman, cineasta talentoso porém amargurado pela crescente suspeita de que sua mulher o traía com seu próprio eu lírico toda vez que ele saía para comprar alcachofras.

Já “Croach Fiction – Tempos de Correspondência” seja talvez o mais belo expoente do movimento retaguardista – que tem como principal conceito-fetiche o uso de guaxinins enraivecidos para o papel da mocinha do filme. O longa-metragem, de autoria de um jovem diretor tcheco que, curiosamente, passou todo o processo de produção do filme acreditando que estava de fato estabelecendo contato com o espírito de um indígena escandinavo que sofria de gases, foi filmado em pleno Morro dos Ventos Uivantes - point mais badalado dos alternativos desde de que se descobriu que o ar da Colina das Brisas Sibilantes só era próprio para algumas espécies de vidas mais prosaicas, como bactérias, arbustos e high schools americanos.

Na realidade, não seria a primeira vez, tampouco a única, que caixeiros-viajantes se transformariam em baratas, estudantes de comunicação ou na roupa de baixo de Lionel Richie nas mãos de grandes nomes da Europa. Muitos desses diretores, no entanto, acabariam impedidos de prosseguir sua carreira devido à contração de uma estranha doença durante as filmagens do musical Le Kafcafé, cujos principais sintomas consistem em sudorese, verborragia e na incapacidade de cantar parabéns sem se despir na frente da família do seu namorado (e vice-versa).

O corpo docente do curso não deixa margem de dúvida quanto à excelência de seus catedráticos, começando pelo próprio diretor do curso, Andrrré Bazãn, fundador do histórico Cahiers du Cinemá e peso-pesado do ramo em todos os sentidos: o pensador não só é dono de uma perícia cinematográfica sem igual, como também possui uma compleição física capaz de comportar cem gêmeas Olsen em cada perna.

Air-Bargman, renomado cineasta e sociólogo dedicado ao estudo de hábitos culturais e marchinhas de carnaval suecas nas horas vagas, é o responsável pela cadeira de Sociologia, Hábitos Culturais e Marchinhas de Carnaval Suecas nas Horas Vagas. Infelizmente, o mais provável é que a turma perca a maior parte de sua fala por causa de um já lendário problema fonodiólogo, que faz com que ele só consiga lecionar suas aulas aos gritos e sussurros. (O que muitas pessoas julgam como mais intrigante na situação é o fato de sua audição ser, particularmente, bastante sensível, visto como toda vez que um aluno emite qualquer tipo de som da aula, ainda que para respirar ou recitar o refrão de I Will Survive em turco, ele imediatamente o xinga de Smultronstället e deixa a sala desabalado em ritmo de marcha atlética.)

Outro cineasta que costumava dar as caras por lá era Roman Polanski, responsável pelo módulo sobre a decupagem de menores até que, numa inesperada e de fato irônica reviravolta, foi obrigado a abandonar a carreira por motivos de uma força menor de idade. É claro que muitos outros nomes importantes já circularam pelos corredores da faculdade, mas a verdade é que, desde a última grande crise entre Bazãn e seu sanduíche de carne, que se recusava a ser chamado de hamburguer pela nova geração de estudantes, grande parte deles se aposentou para ir à Hollywood filmar documentários sobre o acasalamento entre espécies completamente distintas do mundo do espetáculo, como estrelas de cinema e os Oscares de Melhor Efeito Especial e Edição de Som de 1996.

Até o fim do período, o aluno será levado a fazer uma série de descobertas que mudarão para sempre sua relação com a Sétima Arte - o que provocará muitos ciúmes na Terceira e na Quarta, mas um polegar levantado de “é isso aí!” por parte de todas as outras. Em primeiro lugar, verá que sua capacidade de citar toda a obra de Pasolini de trás para a frente e pulando numa perna só será paulatinamente aprimorada. O que no futuro, lhe renderá, rigorosamente, nenhum sexo e algumas bolinhas de papel numa roda de discussão.

O aluno passará da condição de iniciante para iniciado e conquistará o direito de desferir opiniões que, a partir de agora, serão consideradas válidas pela Academia, contato que respeitem as regras básicas de nunca deixar de falar mal do cinema hollywoodiano e a passarem manteiga nos sapatos de outros cinéfilos como prova de sua superioridade. Contudo, sem dúvida a maior lição que poderá ser aproveitada depois de um semestre de curso será a revelação de que a vida pode até ser curta, mas que um filme de Fellini nunca o é.
( Escrito em 16.04.05, vai, projeto deixa-disso: é bobonitinho, affê. )

Friday, October 13, 2006

The strange case of Dr. Gahlinger and Mr. High

Parto normal? Give my vagina a break.

Paul Gahlinger disse quase tudo. Médico e escritor, publicou, em 2003, Illegal Drugs, um livro em que defende o uso de drogas para doentes que lidem com dores de intensidade semelhante a sessões de karaokê com Cindy Lauper cantando Ron Coby. Dia. Após. Dia. O que, a priori, permitiria a pacientes sem histórico masô se aliviarem curtindo um teco ou esbofeteando a pantera. Em suma: pariu? Pelo cu? Segundo o doutor, qualquer mulher à beira de um ataque de fetos pode, com uma justa dose de LSD, deixar de se sentir como Maria Antonieta de Las Nieves dando à luz toda uma equipe da NBA.

Fair enough? Tudo indica que sim. Muitas drogas de hoje já foram o remédio de ontem. Para endossar a premissa-mor de seu livro (a qual eu apóio com o mesmo fervor de um garoto de treze anos que vai à banca da esquina comprar sua primeira edição de Evil Tits), Gahlinger lembra que a proibição das drogas, antes de ser uma máxima científica, é baseada na tradição. Para qualquer pessoa mais esclarecida, afirmar isso é quase senso comum (que já se desconfia ser meio chapado anyway).

Até porque parece simples. E é mesmo. Para alguns séculos e outras tantas culturas, se o que o paciente precisasse para suavizar seu sofrimento era a mala-de-mão de Ozzy Osbourne , era isso o que ele conseguiria. Na era da Guerra Contra as Drogas, tudo mudou. Pra pior. Pois bem: imagine-se feliz. Chegue em casa, coma sua esposa e beije seu filho antes de dormir. Agora, adicione um câncer. Retal. Suas mãos tremem e não é da emoção em espiar sua vizinha fazendo ioga. Meses de hospital, DOR e gelatina. E quer saber? Comprimidos em tamanhos correspondentes a cada um dos Jackson Five não o farão se sentir fa fa fa far better, apesar do que a enfermeira gostosinha de E.R. ensinou pra você.

É complicado. Claro que é. Drogas podem ser legais no sentido “ei, vovô é gay!”, mas não no que concerne à lei. Há quem diga mais: a princípio, não há como impedir que uma reles enxaqueca faça com que o Natal chegue mais cedo na casa do Pete Doherty que existe dentro de cada um de nós. Você pode até falar, “ok, isso é aceitável”. Mas classificaria o leitor de “aceitável” uma performance de Fagner em collant e aramaico? Na verdade, o pensamento é simples: defina: dor. É complicado. Claro que é. Para um canceroso, por exemplo, não é uma questão de “se sentir dor”, mas de “quando sentir dor” – e isso é o tempo todo.

Acontece que, para algumas pessoas (e inclua nesse grupo “todas elas”), nem sempre essa enfermidade é sinônimo de um glioblastoma multiforme de grau IV pressionando seu cérebro a confundir sua mulher com um chapéu. Tio Schops que o diga: viver dá câncer. Como um todo. Empresários gordões à espera de massagistas suecas estapeando sua bunda flácida ao som de um hit qualquer da Enya dá câncer. Faustão dá câncer. Moral dá câncer. Sofia Coppola dá câncer. Fuder dá câncer. Câncer e sífilis. Tudo é relativo. Ou não.

Pois é precisamente aí que entra a tal da jurisprudência. Na hora de mandar para o saco uma retórica mais usada que sabonete de prisão pela indústria farmacêutica - controlada por poucos e porcos filhos da puta mais preocupados em inventar doenças novas e exóticas para embocar na população via supositório publicitário - o famoso “pau no cu do consumidor”. Se o argumento máximo para combater a legalização das drogas no caso de doenças é o de ser muitas vezes impossível saber se alguém não está sendo verdadeiro a respeito da sua condição apenas para facilitar seu acesso a substâncias ilícitas, ponho em pauta um ponto ainda mais válido ao meu ver: num mundo como o nosso, a sobriedade não é terminante: é terminal. Algumas coisas não entram na minha cabeça. Drogas, felizmente, não é uma delas.

Saturday, September 30, 2006

Párfétt, capott, fuck it (hoje acordei meio retardatária)

Hoje tudo o que só acontece comigo aconteceu comigo. Obviously. O Festival tá sendo um fracasso. So far e só vi 12 filmes. Parecia mais. Valia menos. Tá foda. E no duro que o comercial da pipoca japa deixa de ser lindo depois do sétimo filme. Enfim, é aquela velha história do foda-se.

Um BTW: texto novo esta semana. Você liga? Thought so.

C'mon, woman! Be a man!

TV On The Radio, alguém? Tô comprando.

Saturday, August 05, 2006

In te, Domine, speravi

Santa Maria Clara tinha nome e fama de Copacabana, mas desfilava há dezenove anos pelas bandas de Botafogo. Gostava do bairro. Da mesma forma como gostava de Derby mentolado, dar de quatro e bife à parmegiana. Saboreava a todos com igual prazer. As ruas cheias de gente. Às vezes, passeava por elas e comprava um sanduíche de queijo e presunto no botequim da Rua Paula Barreto, mas acomodava a maior parte do dia na cama. Tinha suas preferidas. Conhecia quase todas. Viver era uma questão de tempo, e Santa não perdia nenhum.

Os ponteiros a oeste quando conheceu Augusto Soares, uma tarde na Cobal. Forasteiro da Urca, das pernas grossas, fala macia. Ao longo da vida, se arrependeu de muitas coisas, e essa definitivamente era a melhor delas. O primeiro tapa foi também o último. Já os murros, como a história, gostavam de se repetir. O quanto pôde resistiu: comprou tempo e óculos escuros e nunca deixou de voltar. Duraram seis semanas. Morreu em segundos. Naquele dia, Santa limpou as mãos, a carteira e a alma.

Aquela seria a primeira vez, mas por não ter medo de ninguém, ou por ter medo de todos, desejou que não fosse a última. Desde então, passava horas a fio na janela, sempre à procura de um novo Projeto de Vida. Quando virou vinte, encontrou sem procurar, na padaria da esquina. Ele morava a dois quarteirões e se chamou José, coisa que a garota nunca questionou. Preferia assim. Beberam todas as tardes e fuderam todas as noites até o dia em que ele se retirou de sua vida, levando o colar de dona Luzia Maria Clara e trinta reais em cima da mesinha do quarto.

Botafogo acordou com um velho escroto que morreu no bar e Santa, com um sorriso no rosto. Morte era morte. Matada ou morrida. Não há nada a se lamentar quando se está diante dela. Não se tratava de justiça, disso passava longe. Por pouco. Todos os santos nasceram pecadores. Também os anões começaram pequenos. Da vida, nunca quis muito e recebia menos ainda. Conhecia-a bem demais para se importar com ela. Conhecia-se bem demais para se importar com qualquer coisa.

Os policiais vieram numa tarde de abril.

Thursday, June 29, 2006

Seu nome era João e João só se fudia

Não que ele procurasse pelos problemas. Os problemas é que procuravam por ele. O rapaz, no entanto, não esquentava a cabeça. Nunca achou que o universo fosse o lugar mais apropriado para se nascer, mas não era como se não gostasse de estar ali. Porque João era um crédulo, e dos mais fervorosos. Sempre acreditou que havia algo de especial na Terra, pelo qual valia a pena viver por. Sexo e mulher. Sexo com mulher. Nos dias de sorte. Por mais simplória que fosse, a arte da existência definitivamente era a obra que mais o agradava.

Foi uma matrona, a primeira puta que João comeu. Tinha sete vidas, cinco dentes e pelo menos algumas doenças venéreas. Uma matrona e também sua primeira mulher. Ele tinha dezesseis anos quando começou a se fuder justamente por fuder com os outros. Pouco tempo depois, ainda garoto, se resolveu por sempre olhar por onde andava. Não comia nada sem conferir o prazo de validade. Cada compota. Cada filé. Cada cu. Sua dívida com o decoro era eterna.

Os amigos logo recriminaram o xiitismo aplicado no dia-a-dia, mas João não salgou o cu doce. Se decidiu por ir ter com a vida sozinho. Sozinho e incorruptível. Viver era uma profissão de risco. Virou um guardião da boa causa e dos bons costumes. Se todo mundo tinha duas personalidades, por que usar a mais feia? Aos poucos, foi parando de dar o ar de sua desgraça nas cercanias. Passou a criar galinhas, e cabritos, e vergonha na cara. Recusava todos os convites para as festas da cidade. Em breve, sequer os receberia. Era um cara novo. Novo e durão. O mais durão.

Mas João não era feliz assim. Se vegetariano, seu subconsciente mataria por um rosbife. Nenhuma punheta era capaz de satisfazer mais de uma cabeça ao mesmo tempo. Além disso, viver passou a ter tanta graça quanto uma trupe de 17 gordas fazendo hidroginástica: só divertia os espectadores. Todos da pequena cidade onde morava o tinham como um louco, um demente e um alucinado. Dia após dia besuntado pelo preconceito daqueles porcos simplórios por todo canto em que passava. O que só fazia João se afastar mais e mais à procura de algo que nunca soube exatamente o que era. Procurou independência, mas achou solidão, e também verrugas no saco. O Pau Mais Solitário do Mundo.

Saturday, May 20, 2006

Bon appétit

Como acabaria aquela noite? Ela era que nem martini, seca, e, pior, custava mais caro. Decidiu encarar a patroa mesmo assim. Todo o desespero daquela noite denunciava um movimento perfeitamente coerente com sua vida sexual dos últimos meses: rigorosamente nenhuma. Afinal de contas, os eunucos tinham uma posição social interessante na Índia, mas uma posição social não é necessariamente uma posição sexual. Sexo. Talvez não lembrasse mais como era. Uma vez tentara andar de bicicleta depois de quinze anos sem arranhar o asfalto e se estrepara todo logo na primeira esquina. Ditados mentem. Dor no cu, não. Enfim, melhor deixar rolar. Não é como se não praticasse bastante em casa. No trabalho. Nunca tomou café na hora do break. Via a si mesmo como um cara que praticava medicina terapêutica quando fosse preciso. Além do mais, seu desespero tinha nome: ABSTINÊNCIA. Não podia deixar a garota perceber, caralho. A garota. Cabelos e olhos morenos, boquinha safada, dos lábios grossos. Os de baixo ainda a conferir. ASAP. ABSTINÊNCIA. Se chamava Maira e não era exatamente bonita, mas também não era como se estivesse em posição de negociar. Como se pudesse estalar os dedos e arranjar um ringue de lama para o casting de Baywatch tentar a sorte pelo seu número de telefone. Há muito tempo desistira de encontrar a Foda Ideal. Fazia sentido. Nove meses áridos na cama de um homem, não. Simples. Só precisava de uma boa noite de sexo e um restaurante fora da vizinhança. À sua frente, seu encontro continuava a encará-lo com lasers castanhos ao mesmo tempo que ajeitava as alças do sutiã e cambaleava para o toalete feminino a cada nova taça de vinho, Chardonnay 1968, melhor da casa (pediu o prato mais caro). Ela era irritante, mas ele não ligava. Fazia sentido. Ela se chamava Maira e falava sobre coisas da vida (sic) enquanto ele se graduava na arte de mentalizar a gostosinha do escritório no carrinho de sobremesas da mesa ao lado. Rollin’ like a river, baby. Sim, sim, toda aquela porra fazia sentido, muito sentido de fato! E daí que ela não era a mulher dos seus sonhos, ou melhor, a mulher dos sonhos de ninguém? Ajudava admitir que já havia comido piores no passado. Tudo bem que a sobriedade nunca esteve ao seu lado em horas como aquelas, mas nisso estava trabalhando desde o começo da noite. Nele e nela. Cinco taças de vinho e trabalho braçal no banco da praça era o mínimo que esperava. Ela custava caro. Ele pagava o que fosse. Naquela noite, até uma mulher como Maira parecia o banquete dos deuses. E era mesmo. Hoje o prato principal viria depois da conta, crianças.

Sunday, April 23, 2006

Was Romeo really a jerk...

... and Juliet actually a bitch?

Só sei que Scott Walker disse tudo.

Saturday, April 01, 2006

"Jean-Luke... I'm your father!"

ou “Trufô no cu de Godár é Lola” (Países Baixos, 2006). Direção de Danny DeVito. Estrelando Matheus Natchergaele, Verne Troyer, Giulietta Masina, ET, Toulouse-Lautrec, María Antonieta de Las Nieves, Grande Otelo, Carolina Pavanelli e Pequeno Elenco. Nos anos 60, estudantes de cinema verticalmente prejudicados da Ôropa constróem uma máquina do tempo a partir de um ambicioso experimento envolvendo conceitos de tempo, espaço e macarena ídiche. Decididos a desafiar a prisão temporal em busca do filme perfeito, começam uma jornada sensacional pela história do cinema mas, por motivos de força menor, calham de cair no apartamento do herdeiro biba de Jean-Luke Godár, que a essa altura passava as tardes em seu apartamento tricotando papel higiênico e assustando vizinhos e fãs ocasionais com uma interpretação mocoronga de Ferris Bueller, contra-plongé, bengala de fora. Acomodado na sala de Lola Godár, filhota queima-rosca do então ícone mor da cinémathèque française, o grupo vai pouco a pouco reconfigurando seu olhar sobre o fazer cinematográfico a partir da apresentação de correntes surgidas nas décadas posteriores aos banbanbans da nouvelle-vague. Com Lola, os estudantes aprenderão que é possível descer do salto e ainda assim estar à altura do tamanho do documento de gigantes do cinèma. Passando por obras-primas do Cinema de Retaguarda, como a pérola O Demônio dá onze horas, até a reeleitura cartesiana proposta pelo manifesto revolucionário O discurso do méto tudo mermo, e daí?, dedicado a discutir se a extensão da res cogitans de um cineasta faz ou não diferença afinal de contas, os viajantes do tempo terão sua visão de mundo e outros pontos do seu ser alargados após a experiência de inestimável valor fálico. Um clássico para baixinhos de todas as idades.

Friday, March 24, 2006

The one where Cinderela gets high

Jantou meio pacote de Camel, vestiu a melhor calcinha (preta) e saiu pelas portas do castelo para nunca mais voltar. Era Leary na veia, ha-ha, ela tava numa boa, numa marola que só na onda do ácido, uma parada maneira que a Bela Entorpecida havia repassado na noite anterior. Esse era dos fortes, uia, os efeitos apareciam sem convite e não demorou muito para que todos os convidados do baile virassem a bunda da rainha Eliza Béti, a Feia discursando sobre o tipo de bagulho que afinal deixara o Príncipe tão Encantado, merda merda merda de droga barata...

E puta meu, só com meiota e já estava über high naquela noite. Agora tanto fazia. Mais meia hora e começaria a ouvir tudo quanto é tipo de merda em óffi (na certa um sósia vocal do Armandinho, aquele babaca) com ratos falantes que a aconselhariam a partir por aí antes que sua alma se resolvesse por sair do corpo para dar um telefonema. Enfim, um ponto eles tinham, podia ser uma boa e smack smack, distribuiu dois beijinhos nas amigas e cambaleou um pouco pelas ruas do reinado até o primeiro beco, onde topou com a hippie doidona da Rapunzelda. Resolveu parar pra levar um papinho.

As duas se olharam, trinta segundos de silêncio, o que não é nada para um viciado (“o tempo não existe, no duro!”). Rapunzelda fez uma pausa significativa, passou a mão pelas longas madeixas e acendeu um baseadinho da paz. Respirou fundo e, com a mão pousada no ombro da garota, confessou-lhe uma cousa que só ela e o Grilo Fumante sabiam: Cinderela era uma personagem de ficção.

A jovem partiu desabalada com a notícia e, como se não bastasse, sentindo os efeitos do ácido martelando em cada pedacinho do seu corpo, como se todas as suas células tivessem topado um campeonato de ula-ula tirolês e estivessem agora a caminho da finalíssima, Honolulu, 2006. Sentiu vontade de morrer. Sentiu vontade de matar. Engarrafada na via das dúvidas, decidiu-se por voltar e dar um tapa no bagulho de Rapunzelda; aquela história precisava ser esclarecida, enfim. Agora. Seu mundo estava destruído, sua verdade, nua (ou essa era ela?) e pensando bem, seria a realidade tão terrível? Não, não se você estivesse apropriadamente vestida para ela. Coisa que não estava.

(...) foda-se, foda-me, sentiu de vontade de perder a linha, o novelo, de perder um tapete voador inteiro para esquecer aquela merda. Um, dois tragos mais tarde e deu adieu adieu para a hippie chapada. Decidiu partir pra sempre: hasta la vista, baby, era isso. Precisava encontrar o Sentido da Vida, contado com bonequinhos de Playmobil, trilha sonora by Wander Wildner e o caralho. Entrou no bar no melhor estilo faroeste e mirou sua primeira vítima à moda Robocop, tu tu tu, macho, tu tu tu, 28, tu tu tu, no balcão, o coitado: cabelos desgrenhados, olhar de louco e um enorme cartaz que dizia CHIFRADO, basicamente. Mas negou colo e fumo, o puto. Não gostava da fruta.

- Viado do tipo não-mulher? Mesmo?
- Ha, ha. É, er, desconfio que sim.
- Nem aos domingos?

Sentiu vontade de mandar enfiar a porra do cartaz num lugar onde o sol não bate mas refreou, papo manso. Conversaram a noite toda, se deram bem. Decidiram fazer um fedelho (dividiriam meio-a-meio) na noite seguinte e o primeiro choro seria o código para o ataque das Panteras. Hoje ele se chama Armandinho, aquele babaca. A cara do pai.