Os cabelos continuavam os mesmos. Foi a primeira coisa que notou. Os cabelos e as botas. De couro. Vermelho. Todo o resto era diferente. A boca era diferente. Os ossinhos da clavícula. O tumor. Agora se chamava Carlos Alfonso, 39, não duraria. E como poderia? Já teve maiores. Mais velhos. Alguns malignos. Conhecia-a. Bem. Demais, até. Falamos sobre coisas sérias (fez careta) e tirei doce da criança. Smoothly. O pobre diabo era eu. Tudo. O barulhinho do salto alto datilografando o chão. Tec tec tec, tec. Tudo era diferente. O rebolado. Do rabo. Do cabelo (que era igual). Tinha os dois pés no chão. E pouco tempo fez, também duas mãos. Do rebolado. O rabo. Quarto 205. Pelo cabelo. O nome dela é Maria. Prazer, Maria.
Tuesday, January 30, 2007
Saturday, January 27, 2007
Saturday, January 13, 2007
Continua, ela disse
- Ritinha. É o Paco.
- Ahhhhifjskc...
- Tá acordada? Escuta. A velha finalmente chutou meus córneos pra fora do apê e eu pensei num esqueminha pra celebrar, uma festinha, sei lá.
- Afffjkcmnskmx...
- Olha, preciso saber se sua mãe vai precisar do carro à noite.
A louraça ajeitou a calcinha. No cu. E bocejou sono pra fora – se recompôs (na medida do possível).
- A única coisa que minha mãe precisa à noite é do Prozac dela.
- Perfeito. Me pega às 19h?
- Tanto faz.
19h07 ela já estava lá. Não era daquelas mulheres que atrasavam, tinham corrimento e discutiam a dívida externa do Djibuti. Não, a Ritinha era outra coisa. Não sabia falar com gente. Nunca soube. Assim como Godard, sempre foi fã de si mesma. Mas era muito mais gostosa. Além do mais, gostava de astrologia e de tudo a qualquer coisa dependia se Vênus isso ou Júpiter aquilo. De boquete na praia a triplo assassinato. Não entendia porra nenhuma de nada do que ela dizia e, quando riscaram Plutão do mapa, pensou, “menos um planeta de merda pra encher o meu saco”. Eight to go.
Pararam em frente à loja dos Mímicos Retardados do Alabama, três baianos, uma enfermeira maneta e quatro macacos adestrados. Pediram para falar com o gerente. Um cara gordo com uma pochete escrota, jogada pro lado e soterrada por banha, saiu de trás do balcão. Não era o gerente. Um anão belga se apresentou. Com um duplo twist carpado. Ainda não era o gerente. Um Mímico Retardado do Alabama enfim anunciou: eu sou o gerente. Não era o caso. Paco e Ritinha começaram a se irritar e saíram da loja. Contrataram um mágico.
“Não que você se importe. Não que eu me importe. Não creio que ninguém no mundo se interesse pela minha história. E, Deus, tenho certeza que se tivesse optado pelas Escolhas Certas, o Carro Certo, a Foda Certa, o Emprego Certo, as coisas não seriam diferentes. Talvez seja aquela velha história do foda-se. Talvez algumas pessoas nasçam desgraçadas. Eu poderia estar roubando. Eu poderia estar pedindo. Mas eu estou aqui, fazendo mágica... e nem criança tem nessa porra. Só um bando de viadinhos chapados. Que porra é essa, afinal?”
Três pessoas assistiam ao espetáculo. Uma delas, paralíptica, colocada ali de sacanagem pelos amigos, alternava “seus filhas da puta!” com “me tirem daqui!”, e finalmente “foda-se, viver não vale a pena”. Não falou mais nada. O mágico anunciou seu próximo número, Aquele em que a gilete corta meu pulso e eu tiro o pau da cartola. Ha-ha-ha, umas gordas riram mas Ritinha virou os olhos. Uma da matina e a festa já estava uma merda.
- Legal, seu retardado. Contratou um mágico maníaco-depressivo.
- E o que você queria?
- Você só tem amigos escrotos. Você é escroto. Aposto que você e seus amigos escrotos se orgulhavam de passar as tardes fazendo campeonato de punheta com a foto da tua mãe e depois ligavam para a Globo e mandavam o Chacrinha tomar no cu. Eu vou embora.
- Siga o seu coração.
A garota olhou pra ele com algo próximo de Carinho Incondicional e Desprezo Absoluto Pela Raça Humana. Lá fora, as coisas não estavam melhores. A cerveja estava mais quente que o interior das calças do Michael Jackson no especial de fim de ano da Unicef. O mágico colocou a gola pra fora, o pau pra dentro. Uma das gordas vaiou. Outra delas se conteve com um uivinho de protesto.
Odiava quando ela fazia essa cara. De quem entende melhor um húngaro narrando uma partida de críquete em latim arcaico do que aquelas palavras. Pousou a mão dela em cima do seu pau. Vôo rasante. Agora faltava pouco. Quase duro. Pronto para uma standing ovation. Vai, Ritinha. Colabora, Ritinha. Assim, Ritinha. A festa estava só começando. peganomeupau, Pega. Seu toque era como se dissesse: step aside, ladies, today this lad is all mine.
- A gente não começou nada.
- E se tivesse começado?
- Então eu estaria terminando.
Eh, Ritinha, ah, Ritinha. E não adianta fazer balanço dos anteriores. Foram bons, foram ótimos, foram maravilhosos, foram superfantásticos. Step aside, ladies. Olhem para ela. Olhou para mim. Riu e ri também mas ela o fez por último. Imaginei se no dia seguinte os jornais dariam destaque à Incrível loura que foi embora para seguir seu coração, a imprensa é uma filha e uma puta.
Já o meu segui até o banheiro dos fundos, Playboy, página 17. Me fudi.
Thursday, November 02, 2006
A Hora e a Vez de Billy Nayer

Na conversa, Welles, já um filho da puta de respeito na versão bigger, larger and uncut dos seus anos finais, mete o pau em Godard, a trolha na nouvelle vague e respinga alguma coisa em toda essa borogodagem intelequituau que, na dúvida, opta sempre pela consagração mais irritante – daí o nariz torcido do entrevistado para os 122 minutos mais esquecíveis de sua vida com um filme de Michelangelo. De botar pra fuder, não? Pois – nas palavras do próprio – a história é a seguinte:
"Um dos motivos de eu me entediar tanto com Antonioni – aquela coisa de achar que uma boa tomada vai ficar melhor ainda se você continuar olhando para ela. Ele lhe dá um plano aberto de alguém andando pela rua, da cabeça aos pés. E você pensa: 'Bom, ele não vai levar essa mulher até o fim da rua'. Mas leva. Aí a mulher some e você continua olhando a rua depois de ela ter sumido".
Ora, ter alguém do peso de Orson chamando de cuzão a darlinga de toda essa cambada que venera (quase sempre sem saber o porquê) tudo aquilo capaz de provocar a maior concentração de bocejos por metro quadrado desde o último relatório sexual de Rivers Cuomo é mais do que animador. É gozante. E se a essa altura seja bem provável que você deva estar se perguntando por que consumi quatro parágrafos dessa resenha sem tocar uma vez sequer no filme que abriu a lauda em primeiro lugar, adianto: as razões são múltiplas.
Primeiro porque, mais do que uma obrigação, é sempre um prazer se valer de qualquer pretexto para incinerar o filme do italiano. A unanimidade, já dizia Nelson, é burra. Antonioni, por sua vez, é só chato. Não que o ritmo lento de suas obras seja a única coisa que me incomoda. Não é por aí. É pelo contrário. Eu aprecio Pasolini. Não me entediei com Last Days. Transaria com a Sandy. Eu gosto de lento. Eu curto lento. The American Astronaut, apesar de musical, não é nenhum Moulin Rouge, por exemplo: trocentas algumas-coisas pipocando na tela com o tipo de urgência que transfere o espectador à pele de um garoto de 14 anos pegando no seu primeiro peitinho.
As coisas tomam tempo – o quanto for necessário – para fazer sentido – e esse quase sempre é rigorosamente nenhum. Cenas absolutamente desconexas a uma simbologia ou a uma razão-de-ser criam uma aura niilista perita em passar a impressão de que, ao longo dos 91 minutos de filme, o diretor está tirando uma com a sua cara, e só. Se entrar no clima dele, beleza. Rio Yeti, por exemplo, é uma das cenas mais geniais da história do cinema. Tudo é nonsense. Nada faz sentido. Ou não. Como nos melhores Herzogues.
Também não é nenhum aspirante à Máquina Mortífera XVIII. As coisas não acontecem tudoaomesmotempoagora e a câmera se sente livre para prolongar momentos que fariam qualquer editor de Hollywood arrancar os cabelos – do cara ao lado. Aquela coisa de achar que uma boa tomada vai ficar melhor ainda se você continuar olhando para ela. Nosso filme, as a matter of fact, tem cenas do gênero. Mas não 94 anos. E muito menos pretensão maior para elas. Basta.
Em suma, o desconhecido Cory McAbee é quase tudo o que Antonioni não é. A medida perfeita. E, exatamente por isso, seríssimo candidato à melhor coisa que ainda não aconteceu para o cinema desde 1887 (um ano antes do booty shake contest rodado por Louis de Prince, que antecedeu os Lumière e se fundou como o primeiro feto prematuro da sétima arte). É uma pena – ou uma vantagem, sempre é incerto – que seja tão pouco conhecido, mesmo nos circuitos alternativos.
Até porque, de causar maior burburinho nos bastidores do palco alternativo, é verdade que Astronaut, seu longa de estréia, passou longe. Por pouco. Exibido no Sundance de 2001, competiu com queridinhos que, para muitos, até hoje dizem respeito ao que há de mais di-vi-no no übercult way of life, como Memento e Donnie Darko. Os três, aliás, comendo juntos da poeira da derrota levantada pelo vencedor nas categorias drama e diretor, Hedwig and the Angry Inch, o badaladinho musicult esquisitofrênico de John Cameron Mitchell.
What the fuckelse is new?
É possível, ainda, destacar o fabuloso trabalho da Billy Nayer Show, banda do diretor Cory McAbee que assina os números musicais (que, à moda da No Smoking Orchestra de Emir Kusturica, passa a refrescante impressão de algo enfim original por aí com performances como Girl With the Vagina Made of Glass). Quem sabe apenas o fabuloso trabalho do diretor Cory McAbee – ele próprio uma espécie de Orson Welles reloaded, um verdadeiro faz-tudo – e tudo bem pra carái – quando se trata da sua arte: escreve, produz, atua, dirige e traz (ou rouba) seu amor perdido em três dias, enfim, coisa pra caceta e do caceta.
Eu não sei escrever críticas. Nunca soube, sempre quis e tenho raiva de quem sabe. Sintetizar pensamento é foda – quatro laudas depois, you got the point. Mais foda ainda de se sintetizar, no entanto, é tudo aquilo que senti depois de trocênios alimentando a certeza de que cinema bom era isso aí, bom e enterrado no passado, enchendo as fuças de uísque com Welles, Leone e cia no bar mais capenga do Cemitério dos Fodões. Talvez The American Astronaut não seja tudo isso. Mas pode ser, sem parecer força a barra para tanto. Ao contrário da maioria por aí.
Ser indie – de independente, na origem correta e largamente abandonada do termo – acaba sendo um triste pleonasmo para os freqüentadores de uma statusfera alternativa pouco original, sempre à espera de um messias (que descerá à Terra lendo Kant e ficando doidão de pó após uns belos tapinhas na bunda da Baby Spice) para registrar o que é cool ou não numa tábua de novos mandamentos, cujo único valor digno de mérito é servir de base para alinhar suas carreiras.
Sunday, October 22, 2006
Introdução à História do Cinema
O caixeiro-viajante é outra personagem recorrente na cinematografia européia a ser radiografada por aqui: figuras muito populares em países altamente impopulares, eles imprimiram forte fascínio em toda uma geração de artistas, literatos e vendedores de enciclopédia. Suas histórias de vida já inspiraram tramas inesquecíveis da cinemateca européia, como os épicos “E o Correio Levou...” e “Minha Vida de Inseto”, ambos dirigidos por Alfred E. Newman, cineasta talentoso porém amargurado pela crescente suspeita de que sua mulher o traía com seu próprio eu lírico toda vez que ele saía para comprar alcachofras.
Já “Croach Fiction – Tempos de Correspondência” seja talvez o mais belo expoente do movimento retaguardista – que tem como principal conceito-fetiche o uso de guaxinins enraivecidos para o papel da mocinha do filme. O longa-metragem, de autoria de um jovem diretor tcheco que, curiosamente, passou todo o processo de produção do filme acreditando que estava de fato estabelecendo contato com o espírito de um indígena escandinavo que sofria de gases, foi filmado em pleno Morro dos Ventos Uivantes - point mais badalado dos alternativos desde de que se descobriu que o ar da Colina das Brisas Sibilantes só era próprio para algumas espécies de vidas mais prosaicas, como bactérias, arbustos e high schools americanos.
Na realidade, não seria a primeira vez, tampouco a única, que caixeiros-viajantes se transformariam em baratas, estudantes de comunicação ou na roupa de baixo de Lionel Richie nas mãos de grandes nomes da Europa. Muitos desses diretores, no entanto, acabariam impedidos de prosseguir sua carreira devido à contração de uma estranha doença durante as filmagens do musical Le Kafcafé, cujos principais sintomas consistem em sudorese, verborragia e na incapacidade de cantar parabéns sem se despir na frente da família do seu namorado (e vice-versa).
O corpo docente do curso não deixa margem de dúvida quanto à excelência de seus catedráticos, começando pelo próprio diretor do curso, Andrrré Bazãn, fundador do histórico Cahiers du Cinemá e peso-pesado do ramo em todos os sentidos: o pensador não só é dono de uma perícia cinematográfica sem igual, como também possui uma compleição física capaz de comportar cem gêmeas Olsen em cada perna.
Air-Bargman, renomado cineasta e sociólogo dedicado ao estudo de hábitos culturais e marchinhas de carnaval suecas nas horas vagas, é o responsável pela cadeira de Sociologia, Hábitos Culturais e Marchinhas de Carnaval Suecas nas Horas Vagas. Infelizmente, o mais provável é que a turma perca a maior parte de sua fala por causa de um já lendário problema fonodiólogo, que faz com que ele só consiga lecionar suas aulas aos gritos e sussurros. (O que muitas pessoas julgam como mais intrigante na situação é o fato de sua audição ser, particularmente, bastante sensível, visto como toda vez que um aluno emite qualquer tipo de som da aula, ainda que para respirar ou recitar o refrão de I Will Survive em turco, ele imediatamente o xinga de Smultronstället e deixa a sala desabalado em ritmo de marcha atlética.)
Outro cineasta que costumava dar as caras por lá era Roman Polanski, responsável pelo módulo sobre a decupagem de menores até que, numa inesperada e de fato irônica reviravolta, foi obrigado a abandonar a carreira por motivos de uma força menor de idade. É claro que muitos outros nomes importantes já circularam pelos corredores da faculdade, mas a verdade é que, desde a última grande crise entre Bazãn e seu sanduíche de carne, que se recusava a ser chamado de hamburguer pela nova geração de estudantes, grande parte deles se aposentou para ir à Hollywood filmar documentários sobre o acasalamento entre espécies completamente distintas do mundo do espetáculo, como estrelas de cinema e os Oscares de Melhor Efeito Especial e Edição de Som de 1996.
Até o fim do período, o aluno será levado a fazer uma série de descobertas que mudarão para sempre sua relação com a Sétima Arte - o que provocará muitos ciúmes na Terceira e na Quarta, mas um polegar levantado de “é isso aí!” por parte de todas as outras. Em primeiro lugar, verá que sua capacidade de citar toda a obra de Pasolini de trás para a frente e pulando numa perna só será paulatinamente aprimorada. O que no futuro, lhe renderá, rigorosamente, nenhum sexo e algumas bolinhas de papel numa roda de discussão.
O aluno passará da condição de iniciante para iniciado e conquistará o direito de desferir opiniões que, a partir de agora, serão consideradas válidas pela Academia, contato que respeitem as regras básicas de nunca deixar de falar mal do cinema hollywoodiano e a passarem manteiga nos sapatos de outros cinéfilos como prova de sua superioridade. Contudo, sem dúvida a maior lição que poderá ser aproveitada depois de um semestre de curso será a revelação de que a vida pode até ser curta, mas que um filme de Fellini nunca o é.
Friday, October 13, 2006
The strange case of Dr. Gahlinger and Mr. High
Paul Gahlinger disse quase tudo. Médico e escritor, publicou, em 2003, Illegal Drugs, um livro em que defende o uso de drogas para doentes que lidem com dores de intensidade semelhante a sessões de karaokê com Cindy Lauper cantando Ron Coby. Dia. Após. Dia. O que, a priori, permitiria a pacientes sem histórico masô se aliviarem curtindo um teco ou esbofeteando a pantera. Em suma: pariu? Pelo cu? Segundo o doutor, qualquer mulher à beira de um ataque de fetos pode, com uma justa dose de LSD, deixar de se sentir como Maria Antonieta de Las Nieves dando à luz toda uma equipe da NBA.
Fair enough? Tudo indica que sim. Muitas drogas de hoje já foram o remédio de ontem. Para endossar a premissa-mor de seu livro (a qual eu apóio com o mesmo fervor de um garoto de treze anos que vai à banca da esquina comprar sua primeira edição de Evil Tits), Gahlinger lembra que a proibição das drogas, antes de ser uma máxima científica, é baseada na tradição. Para qualquer pessoa mais esclarecida, afirmar isso é quase senso comum (que já se desconfia ser meio chapado anyway).
Até porque parece simples. E é mesmo. Para alguns séculos e outras tantas culturas, se o que o paciente precisasse para suavizar seu sofrimento era a mala-de-mão de Ozzy Osbourne , era isso o que ele conseguiria. Na era da Guerra Contra as Drogas, tudo mudou. Pra pior. Pois bem: imagine-se feliz. Chegue em casa, coma sua esposa e beije seu filho antes de dormir. Agora, adicione um câncer. Retal. Suas mãos tremem e não é da emoção em espiar sua vizinha fazendo ioga. Meses de hospital, DOR e gelatina. E quer saber? Comprimidos em tamanhos correspondentes a cada um dos Jackson Five não o farão se sentir fa fa fa far better, apesar do que a enfermeira gostosinha de E.R. ensinou pra você.
É complicado. Claro que é. Drogas podem ser legais no sentido “ei, vovô é gay!”, mas não no que concerne à lei. Há quem diga mais: a princípio, não há como impedir que uma reles enxaqueca faça com que o Natal chegue mais cedo na casa do Pete Doherty que existe dentro de cada um de nós. Você pode até falar, “ok, isso é aceitável”. Mas classificaria o leitor de “aceitável” uma performance de Fagner em collant e aramaico? Na verdade, o pensamento é simples: defina: dor. É complicado. Claro que é. Para um canceroso, por exemplo, não é uma questão de “se sentir dor”, mas de “quando sentir dor” – e isso é o tempo todo.
Acontece que, para algumas pessoas (e inclua nesse grupo “todas elas”), nem sempre essa enfermidade é sinônimo de um glioblastoma multiforme de grau IV pressionando seu cérebro a confundir sua mulher com um chapéu. Tio Schops que o diga: viver dá câncer. Como um todo. Empresários gordões à espera de massagistas suecas estapeando sua bunda flácida ao som de um hit qualquer da Enya dá câncer. Faustão dá câncer. Moral dá câncer. Sofia Coppola dá câncer. Fuder dá câncer. Câncer e sífilis. Tudo é relativo. Ou não.
Pois é precisamente aí que entra a tal da jurisprudência. Na hora de mandar para o saco uma retórica mais usada que sabonete de prisão pela indústria farmacêutica - controlada por poucos e porcos filhos da puta mais preocupados em inventar doenças novas e exóticas para embocar na população via supositório publicitário - o famoso “pau no cu do consumidor”. Se o argumento máximo para combater a legalização das drogas no caso de doenças é o de ser muitas vezes impossível saber se alguém não está sendo verdadeiro a respeito da sua condição apenas para facilitar seu acesso a substâncias ilícitas, ponho em pauta um ponto ainda mais válido ao meu ver: num mundo como o nosso, a sobriedade não é terminante: é terminal. Algumas coisas não entram na minha cabeça. Drogas, felizmente, não é uma delas.
Saturday, September 30, 2006
Párfétt, capott, fuck it (hoje acordei meio retardatária)
Saturday, August 05, 2006
In te, Domine, speravi
Os ponteiros a oeste quando conheceu Augusto Soares, uma tarde na Cobal. Forasteiro da Urca, das pernas grossas, fala macia. Ao longo da vida, se arrependeu de muitas coisas, e essa definitivamente era a melhor delas. O primeiro tapa foi também o último. Já os murros, como a história, gostavam de se repetir. O quanto pôde resistiu: comprou tempo e óculos escuros e nunca deixou de voltar. Duraram seis semanas. Morreu em segundos. Naquele dia, Santa limpou as mãos, a carteira e a alma.
Aquela seria a primeira vez, mas por não ter medo de ninguém, ou por ter medo de todos, desejou que não fosse a última. Desde então, passava horas a fio na janela, sempre à procura de um novo Projeto de Vida. Quando virou vinte, encontrou sem procurar, na padaria da esquina. Ele morava a dois quarteirões e se chamou José, coisa que a garota nunca questionou. Preferia assim. Beberam todas as tardes e fuderam todas as noites até o dia em que ele se retirou de sua vida, levando o colar de dona Luzia Maria Clara e trinta reais em cima da mesinha do quarto.
Botafogo acordou com um velho escroto que morreu no bar e Santa, com um sorriso no rosto. Morte era morte. Matada ou morrida. Não há nada a se lamentar quando se está diante dela. Não se tratava de justiça, disso passava longe. Por pouco. Todos os santos nasceram pecadores. Também os anões começaram pequenos. Da vida, nunca quis muito e recebia menos ainda. Conhecia-a bem demais para se importar com ela. Conhecia-se bem demais para se importar com qualquer coisa.
Os policiais vieram numa tarde de abril.
Thursday, June 29, 2006
Seu nome era João e João só se fudia
Foi uma matrona, a primeira puta que João comeu. Tinha sete vidas, cinco dentes e pelo menos algumas doenças venéreas. Uma matrona e também sua primeira mulher. Ele tinha dezesseis anos quando começou a se fuder justamente por fuder com os outros. Pouco tempo depois, ainda garoto, se resolveu por sempre olhar por onde andava. Não comia nada sem conferir o prazo de validade. Cada compota. Cada filé. Cada cu. Sua dívida com o decoro era eterna.
Os amigos logo recriminaram o xiitismo aplicado no dia-a-dia, mas João não salgou o cu doce. Se decidiu por ir ter com a vida sozinho. Sozinho e incorruptível. Viver era uma profissão de risco. Virou um guardião da boa causa e dos bons costumes. Se todo mundo tinha duas personalidades, por que usar a mais feia? Aos poucos, foi parando de dar o ar de sua desgraça nas cercanias. Passou a criar galinhas, e cabritos, e vergonha na cara. Recusava todos os convites para as festas da cidade. Em breve, sequer os receberia. Era um cara novo. Novo e durão. O mais durão.
Mas João não era feliz assim. Se vegetariano, seu subconsciente mataria por um rosbife. Nenhuma punheta era capaz de satisfazer mais de uma cabeça ao mesmo tempo. Além disso, viver passou a ter tanta graça quanto uma trupe de 17 gordas fazendo hidroginástica: só divertia os espectadores. Todos da pequena cidade onde morava o tinham como um louco, um demente e um alucinado. Dia após dia besuntado pelo preconceito daqueles porcos simplórios por todo canto em que passava. O que só fazia João se afastar mais e mais à procura de algo que nunca soube exatamente o que era. Procurou independência, mas achou solidão, e também verrugas no saco. O Pau Mais Solitário do Mundo.
Saturday, May 20, 2006
Bon appétit
Sunday, April 23, 2006
Saturday, April 01, 2006
"Jean-Luke... I'm your father!"
Friday, March 24, 2006
The one where Cinderela gets high
E puta meu, só com meiota e já estava über high naquela noite. Agora tanto fazia. Mais meia hora e começaria a ouvir tudo quanto é tipo de merda em óffi (na certa um sósia vocal do Armandinho, aquele babaca) com ratos falantes que a aconselhariam a partir por aí antes que sua alma se resolvesse por sair do corpo para dar um telefonema. Enfim, um ponto eles tinham, podia ser uma boa e smack smack, distribuiu dois beijinhos nas amigas e cambaleou um pouco pelas ruas do reinado até o primeiro beco, onde topou com a hippie doidona da Rapunzelda. Resolveu parar pra levar um papinho.
As duas se olharam, trinta segundos de silêncio, o que não é nada para um viciado (“o tempo não existe, no duro!”). Rapunzelda fez uma pausa significativa, passou a mão pelas longas madeixas e acendeu um baseadinho da paz. Respirou fundo e, com a mão pousada no ombro da garota, confessou-lhe uma cousa que só ela e o Grilo Fumante sabiam: Cinderela era uma personagem de ficção.
A jovem partiu desabalada com a notícia e, como se não bastasse, sentindo os efeitos do ácido martelando em cada pedacinho do seu corpo, como se todas as suas células tivessem topado um campeonato de ula-ula tirolês e estivessem agora a caminho da finalíssima, Honolulu, 2006. Sentiu vontade de morrer. Sentiu vontade de matar. Engarrafada na via das dúvidas, decidiu-se por voltar e dar um tapa no bagulho de Rapunzelda; aquela história precisava ser esclarecida, enfim. Agora. Seu mundo estava destruído, sua verdade, nua (ou essa era ela?) e pensando bem, seria a realidade tão terrível? Não, não se você estivesse apropriadamente vestida para ela. Coisa que não estava.
(...) foda-se, foda-me, sentiu de vontade de perder a linha, o novelo, de perder um tapete voador inteiro para esquecer aquela merda. Um, dois tragos mais tarde e deu adieu adieu para a hippie chapada. Decidiu partir pra sempre: hasta la vista, baby, era isso. Precisava encontrar o Sentido da Vida, contado com bonequinhos de Playmobil, trilha sonora by Wander Wildner e o caralho. Entrou no bar no melhor estilo faroeste e mirou sua primeira vítima à moda Robocop, tu tu tu, macho, tu tu tu, 28, tu tu tu, no balcão, o coitado: cabelos desgrenhados, olhar de louco e um enorme cartaz que dizia CHIFRADO, basicamente. Mas negou colo e fumo, o puto. Não gostava da fruta.
- Viado do tipo não-mulher? Mesmo?
- Ha, ha. É, er, desconfio que sim.
- Nem aos domingos?
Sentiu vontade de mandar enfiar a porra do cartaz num lugar onde o sol não bate mas refreou, papo manso. Conversaram a noite toda, se deram bem. Decidiram fazer um fedelho (dividiriam meio-a-meio) na noite seguinte e o primeiro choro seria o código para o ataque das Panteras. Hoje ele se chama Armandinho, aquele babaca. A cara do pai.
Wednesday, March 15, 2006
Uma nação contra Hitler

2006 foi um ano politicamente correto para a Academia. Uma mulher contra Hitler, o strudel alemão que disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro contra o vencedor Tsotsi e o supramencionado Paradise now, foi só um dos vários nomes da noite que vestiram a camisa política nos corredores do Teatro Kodak. De Clooney a Clooney, com o regular Syriana e o ótimo Boa noite e boa sorte, ao (pálido) debate racial em Crash e à bandeira levantada do orgulho gay em Capote e Brokeback Mountain, o clima em geral era favorável à débâcle do festival de ortodoxia usualmente oferecido pelo então conservador júri da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Pois quanto à amazing disgrace que tematizou a politizada cerimônia desse ano, o longa-metragem de Marc Rothemund se encaixa impecavelmente no perfil. A partir dos cinco últimos dias da vida de Sophie Scholl (Julie Jentsch), uma jovem alemã que foi presa, condenada e julgada à morte junto ao irmão e um amigo durante o breve período por sua participação em um movimento de resistência ao Terceiro Reich, o diretor traz de volta às telas toda a amargura de um país que até hoje luta para fazer as pazes com, ou melhor, pelo seu passado.
Frente de oposição formada por estudantes em plena II Guerra Mundial, o Weisse Rose – ou Rosa Branca – sucumbiu às garras da águia nazista com o episódio o qual o filme se propõe a (re)contar, em que os irmãos Scholl são apreendidos na Universidade de Munique após espalharem por suas instalações cartas que questionavam “a brilhante estratégia de nosso führer” em persistir numa guerra cujo final da estória, predito por capítulos sangrentos como Stalingrado, era a derrota iminente. Jogados 1943 – ano em que a sorte do conflito começou a contornar em prol dos Aliados -, e à luz da história já revista, a avaliação dos jovens parece óbvia. O problema é que era mesmo. O que ainda assim, como bem se sabe, não impediu, às custas de milhões de vidas – de ambos os lados -, que o Terceiro Reich só pontuasse o final dessa guerra dois anos mais tarde, com uma bala para Hitler e uma segunda derrota em menos de trinta anos para a Alemanha.
A questão de Rothemund, no entanto, parece estar mais no presente do que no passado. Com a nuvem do trauma nacional-socialista dissipando-se pouco a pouco com o passar dos anos, volta e meia uma nova leva de produções na cinematografia mundial chega, com direito a choque elétrico e o caralho, para enfim apertar a mão que balançou o berço nazista da Europa de meados do século XX. Uma mulher contra Hitler, nesse sentido, é mais uma peça de expiação da culpa por parte da juventude contemporânea alemã.
Com passaporte em mãos, o desejo é uno: sair por fim e de uma vez por todas do purgatório o qual a velha guarda alemã, o vovô Fritz, toda uma nação hipnotizada pela oratória fascista de Hitler reservou às futuras gerações para uma estada forçada. Com um peso do tamanho do holocausto para escusar de seus ombros, a tarefa não é fácil. É colossal. Filmes como A queda e mesmo Os produtores, refilmagem em Broadway style de Primavera para Hitler (uma parceria clássica de Mel Brooks e Zero Mostel) parecem, contudo, dispostos a comprar essa briga. Cenas como o führer chorando como menininha ou como destaque em avenida na gay parade nacional-socialista são evidências notáveis nessa direção. Os tempos, definitivamente, estão mudando.
Enfim, nada carregado com o ar denso, prolongaaaaado que se esperaria respirar numa atmosfera tão pesada quanto a que envolve uma nação ainda despreparada a sentar-se no divã e alijar os traumas deixados pelos seus antepassados – o mesmo sangue! correndo pelas suas veias! - ao invés de ir ao confessionário penitenciar-se por um pecado que não cometou. Pois esse parece ser o pique da nova geração alemã. Seja ao retratar um Hitler humanizado n’A queda, seja ao insistir em bater na mesma tecla para escrever uma estória onde nem todas as personagens resumiram a personificação do Mal maiúsculo e que algumas, imagine!, ousaram inclusive se opôr ao regime hitlerista, a idéia em pauta não é perdoar, mas olhar para trás pela perspectiva dos vencidos, no lugar apenas daquela dos vencedores.
Assim, a ordem do dia, cada vez mais, é pôr em quarentena a mais contagiosa necessidade de autoflagelo para provar que só chora pelo leite derramado quem gosta de coalhada. É claro que os nazistas eram malvadões. Ninguém está aqui para contrariar isso, muito menos Marc Rothemund: em contrapartida ao Hitler de Bruno Ganz, que conseguia encaixar em sua agenda alguns espasmos de humanidade entre pular fogueira com Nero e o chá das cinco com o Capeta, o nazista de Uma mulher contra Hitler veste uma carapuça feita à medida exata para acentuar a vilania esperada do mau elemento que é. Mostra os dentes, dá chilique, bate os pés. Um verdadeiro show de intransigência, enfim.
O que não deixa de ser, nesse aspecto, o ponto fraco do filme. Sophie Scholl representa uma espécie de Joana D’Arc sabor chucrute, chegando a recrutar nada menos que a justiça divina para alterar o pino de rotação do Eixo do Mal. “Podem nos julgar agora, mas amanhã serão vocês a estarem no nosso lugar,” como profetiza a candidata à Miss Mártir 1943. Uma pena. Sem esse quinhão de maniqueísmo, a história só teria a ganhar.
Mas como carro-chefe da película, o mérito, ou pelo menos o mote do filme é mostrar que não, senhor, nem toda a Alemanha cruzou os braços e foi jogar bridge enquanto Hitler brincava de dominar o mundo. Hannah Arendt já disse que, muito provavelmente, estando no mesmo lugar e hora errados, qualquer ser humano consentiria com a via-crúcis nazista com a mesma naturalidade que um Hans e uma Frau o fizeram durante o Terceiro Reich. Ou seja, pensar em um gene germânico vestindo a camisa do Mal, estipulando a vocação de um povo à vilania, é simplesmente ridículo. Da mesma forma, e é aqui onde o trabalho de Marc Rothemund esbarra com sua raison d’être, trazer à tona a história do Rosa Branca é uma forma de oferecer evidências ao tribunal histórico que mesmo o “abjeto povo alemão” postou, na medida do possível e do impossível, resistência aos planos megalomaníacos de seu führer.
Se o filme começa arejando ares de thriller político, com cenas tensas onde Sophie e o irmão colocam a operação em ação numa verdadeira batalha contra o tempo, essa adrenalina inicial – de sutil parentesco hollywoodiano - logo se esvai para dar espaço a uma sempre bem vinda trama psicológica, quando Sophie é interrogada por Robert Mohr (Gerald Alexander Held), integrante da polícia de Adolf Hitler.
Mas sem duplos twists carpados mirabolantes no roteiro, que fique claro. E nem precisa. O diálogo travado entre a jovem idealista e o oficial nazista é, na verdade, e acima de tudo, um embate ideológico. E uma guerra antes de tudo travada em palavras, artilharia tão ou mais mortífera que as bombas que devastaram a Europa daqueles dias. Amparada por sólida atuação da dupla de atores, estas são indubitavelmente as melhores cenas do filme, capazes de levar qualquer espectador a desejar entrar ele mesmo na tela e sacudir Mohr pelo colarinho até que sua máscara de inflexibilidade caia película abaixo (embora a oscilação do interrogador quanto à validade do ideário nazista seja evidenciada em mais de uma parte do filme – o que não o impede, entretanto, de assegurar que o próximo passo do trio de militantes seja em direção ao corredor da morte).
Sophie Scholl, durante todo o interrogatório, é uma amazona. Mente e manipula com facilidade notável em defesa de sua causa e também para defender a identidade dos outros componentes do movimento de resistência pacífica. (O único momento em que se permite fraquejar é quando está sozinha em frente ao espelho, após tornar-se nítido que todas suas tentativas de driblar a inteligência nazista se revelaram vãs – uma das cenas mais reveladoras do filme.) No resto do tempo, sua dissimulação esculpi um caráter que, mais que uma montanha, é uma verdadeira cordilheira de gelo. Fria, inabalável, obstinada. Tudo em prol daquele tipo de paixão que só um idealista old school nutre por uma causa.
A força da personagem, todavia, deve a maior parte do crédito à atuação de sua atriz. E nesse sentido, com pouco ou nenhum tropeço, a conclusão é invariavelmente a mesma para o lado de cá da platéia: Julia Jentsch, mais conhecida pela sua participação no oba-oba juvenil de Hans Weingartner, Edukators (uma espécie de bíblia cinematográfica para a Che generation dos tempos coevos), amadureceu. Com louvor. Sua interpretação para Sophie Scholl é tão sólida quanto as convicções da personagem, tornando a fé do espectador no idealismo da jovem quase que uma obrigação.
Uma mulher contra Hitler tem suas falhas, e não são poucas. A câmera é um tanto burocrática. Os sentimentos do espectador, por ora manipulados. Não duvide ainda que alguns irão questionar se a escolha de enfocar a história de Sophie somente, ao invés dos três militantes executados naquela noite de fevereiro de 1943, pode carregar algo de apelo feminista franqueado, visto como os atos de bravura realizados por Sophie não são mais instigantes do que, por exemplo, aqueles de seu irmão. Mas não faz mal. Pesando os prós e os contras do filme, a balança é simpática à causa de Rothemund.
E se o sacrifício de Sophie Scholl foi em vão? Não a esquecer, mas deixá-la para trás junto com todo o panorama que levou à morte da militante é justamente o divórcio entre passado e presente pleiteado por uma nação que legou a mais maldita de todas as heranças. A incompatibilidade de gênios entre a atual Alemanha e aquela de Adolf Hitler é, afinal, a idéia entalada na garganta de toda uma geração.
Friday, February 24, 2006
É impressão minha
Ai, ai, ai, fofo. Monta o meu que eu monto o seu, vai.
Sunday, February 19, 2006
Dois filhos de Friedricho
Friday, February 17, 2006
Nove canções
:: Black Saint and the Sinner Lady, The – Charles Mingus
:: Candyland – Cocorosie
:: Jackie – Scott Walker
:: Limehouse Blues – Django Reinhardt
:: Sing Sing Sing – Benny Goodman
:: Suicide is Painless – Manic Street Preachers
:: Take Your Carriage and Shove It – Belle & Sebastian
:: Unza Unza Time – Emir Kusturica and the No Smoking Band

