Saturday, August 05, 2006

In te, Domine, speravi

Santa Maria Clara tinha nome e fama de Copacabana, mas desfilava há dezenove anos pelas bandas de Botafogo. Gostava do bairro. Da mesma forma como gostava de Derby mentolado, dar de quatro e bife à parmegiana. Saboreava a todos com igual prazer. As ruas cheias de gente. Às vezes, passeava por elas e comprava um sanduíche de queijo e presunto no botequim da Rua Paula Barreto, mas acomodava a maior parte do dia na cama. Tinha suas preferidas. Conhecia quase todas. Viver era uma questão de tempo, e Santa não perdia nenhum.

Os ponteiros a oeste quando conheceu Augusto Soares, uma tarde na Cobal. Forasteiro da Urca, das pernas grossas, fala macia. Ao longo da vida, se arrependeu de muitas coisas, e essa definitivamente era a melhor delas. O primeiro tapa foi também o último. Já os murros, como a história, gostavam de se repetir. O quanto pôde resistiu: comprou tempo e óculos escuros e nunca deixou de voltar. Duraram seis semanas. Morreu em segundos. Naquele dia, Santa limpou as mãos, a carteira e a alma.

Aquela seria a primeira vez, mas por não ter medo de ninguém, ou por ter medo de todos, desejou que não fosse a última. Desde então, passava horas a fio na janela, sempre à procura de um novo Projeto de Vida. Quando virou vinte, encontrou sem procurar, na padaria da esquina. Ele morava a dois quarteirões e se chamou José, coisa que a garota nunca questionou. Preferia assim. Beberam todas as tardes e fuderam todas as noites até o dia em que ele se retirou de sua vida, levando o colar de dona Luzia Maria Clara e trinta reais em cima da mesinha do quarto.

Botafogo acordou com um velho escroto que morreu no bar e Santa, com um sorriso no rosto. Morte era morte. Matada ou morrida. Não há nada a se lamentar quando se está diante dela. Não se tratava de justiça, disso passava longe. Por pouco. Todos os santos nasceram pecadores. Também os anões começaram pequenos. Da vida, nunca quis muito e recebia menos ainda. Conhecia-a bem demais para se importar com ela. Conhecia-se bem demais para se importar com qualquer coisa.

Os policiais vieram numa tarde de abril.

Thursday, June 29, 2006

Seu nome era João e João só se fudia

Não que ele procurasse pelos problemas. Os problemas é que procuravam por ele. O rapaz, no entanto, não esquentava a cabeça. Nunca achou que o universo fosse o lugar mais apropriado para se nascer, mas não era como se não gostasse de estar ali. Porque João era um crédulo, e dos mais fervorosos. Sempre acreditou que havia algo de especial na Terra, pelo qual valia a pena viver por. Sexo e mulher. Sexo com mulher. Nos dias de sorte. Por mais simplória que fosse, a arte da existência definitivamente era a obra que mais o agradava.

Foi uma matrona, a primeira puta que João comeu. Tinha sete vidas, cinco dentes e pelo menos algumas doenças venéreas. Uma matrona e também sua primeira mulher. Ele tinha dezesseis anos quando começou a se fuder justamente por fuder com os outros. Pouco tempo depois, ainda garoto, se resolveu por sempre olhar por onde andava. Não comia nada sem conferir o prazo de validade. Cada compota. Cada filé. Cada cu. Sua dívida com o decoro era eterna.

Os amigos logo recriminaram o xiitismo aplicado no dia-a-dia, mas João não salgou o cu doce. Se decidiu por ir ter com a vida sozinho. Sozinho e incorruptível. Viver era uma profissão de risco. Virou um guardião da boa causa e dos bons costumes. Se todo mundo tinha duas personalidades, por que usar a mais feia? Aos poucos, foi parando de dar o ar de sua desgraça nas cercanias. Passou a criar galinhas, e cabritos, e vergonha na cara. Recusava todos os convites para as festas da cidade. Em breve, sequer os receberia. Era um cara novo. Novo e durão. O mais durão.

Mas João não era feliz assim. Se vegetariano, seu subconsciente mataria por um rosbife. Nenhuma punheta era capaz de satisfazer mais de uma cabeça ao mesmo tempo. Além disso, viver passou a ter tanta graça quanto uma trupe de 17 gordas fazendo hidroginástica: só divertia os espectadores. Todos da pequena cidade onde morava o tinham como um louco, um demente e um alucinado. Dia após dia besuntado pelo preconceito daqueles porcos simplórios por todo canto em que passava. O que só fazia João se afastar mais e mais à procura de algo que nunca soube exatamente o que era. Procurou independência, mas achou solidão, e também verrugas no saco. O Pau Mais Solitário do Mundo.

Saturday, May 20, 2006

Bon appétit

Como acabaria aquela noite? Ela era que nem martini, seca, e, pior, custava mais caro. Decidiu encarar a patroa mesmo assim. Todo o desespero daquela noite denunciava um movimento perfeitamente coerente com sua vida sexual dos últimos meses: rigorosamente nenhuma. Afinal de contas, os eunucos tinham uma posição social interessante na Índia, mas uma posição social não é necessariamente uma posição sexual. Sexo. Talvez não lembrasse mais como era. Uma vez tentara andar de bicicleta depois de quinze anos sem arranhar o asfalto e se estrepara todo logo na primeira esquina. Ditados mentem. Dor no cu, não. Enfim, melhor deixar rolar. Não é como se não praticasse bastante em casa. No trabalho. Nunca tomou café na hora do break. Via a si mesmo como um cara que praticava medicina terapêutica quando fosse preciso. Além do mais, seu desespero tinha nome: ABSTINÊNCIA. Não podia deixar a garota perceber, caralho. A garota. Cabelos e olhos morenos, boquinha safada, dos lábios grossos. Os de baixo ainda a conferir. ASAP. ABSTINÊNCIA. Se chamava Maira e não era exatamente bonita, mas também não era como se estivesse em posição de negociar. Como se pudesse estalar os dedos e arranjar um ringue de lama para o casting de Baywatch tentar a sorte pelo seu número de telefone. Há muito tempo desistira de encontrar a Foda Ideal. Fazia sentido. Nove meses áridos na cama de um homem, não. Simples. Só precisava de uma boa noite de sexo e um restaurante fora da vizinhança. À sua frente, seu encontro continuava a encará-lo com lasers castanhos ao mesmo tempo que ajeitava as alças do sutiã e cambaleava para o toalete feminino a cada nova taça de vinho, Chardonnay 1968, melhor da casa (pediu o prato mais caro). Ela era irritante, mas ele não ligava. Fazia sentido. Ela se chamava Maira e falava sobre coisas da vida (sic) enquanto ele se graduava na arte de mentalizar a gostosinha do escritório no carrinho de sobremesas da mesa ao lado. Rollin’ like a river, baby. Sim, sim, toda aquela porra fazia sentido, muito sentido de fato! E daí que ela não era a mulher dos seus sonhos, ou melhor, a mulher dos sonhos de ninguém? Ajudava admitir que já havia comido piores no passado. Tudo bem que a sobriedade nunca esteve ao seu lado em horas como aquelas, mas nisso estava trabalhando desde o começo da noite. Nele e nela. Cinco taças de vinho e trabalho braçal no banco da praça era o mínimo que esperava. Ela custava caro. Ele pagava o que fosse. Naquela noite, até uma mulher como Maira parecia o banquete dos deuses. E era mesmo. Hoje o prato principal viria depois da conta, crianças.

Sunday, April 23, 2006

Was Romeo really a jerk...

... and Juliet actually a bitch?

Só sei que Scott Walker disse tudo.

Saturday, April 01, 2006

"Jean-Luke... I'm your father!"

ou “Trufô no cu de Godár é Lola” (Países Baixos, 2006). Direção de Danny DeVito. Estrelando Matheus Natchergaele, Verne Troyer, Giulietta Masina, ET, Toulouse-Lautrec, María Antonieta de Las Nieves, Grande Otelo, Carolina Pavanelli e Pequeno Elenco. Nos anos 60, estudantes de cinema verticalmente prejudicados da Ôropa constróem uma máquina do tempo a partir de um ambicioso experimento envolvendo conceitos de tempo, espaço e macarena ídiche. Decididos a desafiar a prisão temporal em busca do filme perfeito, começam uma jornada sensacional pela história do cinema mas, por motivos de força menor, calham de cair no apartamento do herdeiro biba de Jean-Luke Godár, que a essa altura passava as tardes em seu apartamento tricotando papel higiênico e assustando vizinhos e fãs ocasionais com uma interpretação mocoronga de Ferris Bueller, contra-plongé, bengala de fora. Acomodado na sala de Lola Godár, filhota queima-rosca do então ícone mor da cinémathèque française, o grupo vai pouco a pouco reconfigurando seu olhar sobre o fazer cinematográfico a partir da apresentação de correntes surgidas nas décadas posteriores aos banbanbans da nouvelle-vague. Com Lola, os estudantes aprenderão que é possível descer do salto e ainda assim estar à altura do tamanho do documento de gigantes do cinèma. Passando por obras-primas do Cinema de Retaguarda, como a pérola O Demônio dá onze horas, até a reeleitura cartesiana proposta pelo manifesto revolucionário O discurso do méto tudo mermo, e daí?, dedicado a discutir se a extensão da res cogitans de um cineasta faz ou não diferença afinal de contas, os viajantes do tempo terão sua visão de mundo e outros pontos do seu ser alargados após a experiência de inestimável valor fálico. Um clássico para baixinhos de todas as idades.

Friday, March 24, 2006

The one where Cinderela gets high

Jantou meio pacote de Camel, vestiu a melhor calcinha (preta) e saiu pelas portas do castelo para nunca mais voltar. Era Leary na veia, ha-ha, ela tava numa boa, numa marola que só na onda do ácido, uma parada maneira que a Bela Entorpecida havia repassado na noite anterior. Esse era dos fortes, uia, os efeitos apareciam sem convite e não demorou muito para que todos os convidados do baile virassem a bunda da rainha Eliza Béti, a Feia discursando sobre o tipo de bagulho que afinal deixara o Príncipe tão Encantado, merda merda merda de droga barata...

E puta meu, só com meiota e já estava über high naquela noite. Agora tanto fazia. Mais meia hora e começaria a ouvir tudo quanto é tipo de merda em óffi (na certa um sósia vocal do Armandinho, aquele babaca) com ratos falantes que a aconselhariam a partir por aí antes que sua alma se resolvesse por sair do corpo para dar um telefonema. Enfim, um ponto eles tinham, podia ser uma boa e smack smack, distribuiu dois beijinhos nas amigas e cambaleou um pouco pelas ruas do reinado até o primeiro beco, onde topou com a hippie doidona da Rapunzelda. Resolveu parar pra levar um papinho.

As duas se olharam, trinta segundos de silêncio, o que não é nada para um viciado (“o tempo não existe, no duro!”). Rapunzelda fez uma pausa significativa, passou a mão pelas longas madeixas e acendeu um baseadinho da paz. Respirou fundo e, com a mão pousada no ombro da garota, confessou-lhe uma cousa que só ela e o Grilo Fumante sabiam: Cinderela era uma personagem de ficção.

A jovem partiu desabalada com a notícia e, como se não bastasse, sentindo os efeitos do ácido martelando em cada pedacinho do seu corpo, como se todas as suas células tivessem topado um campeonato de ula-ula tirolês e estivessem agora a caminho da finalíssima, Honolulu, 2006. Sentiu vontade de morrer. Sentiu vontade de matar. Engarrafada na via das dúvidas, decidiu-se por voltar e dar um tapa no bagulho de Rapunzelda; aquela história precisava ser esclarecida, enfim. Agora. Seu mundo estava destruído, sua verdade, nua (ou essa era ela?) e pensando bem, seria a realidade tão terrível? Não, não se você estivesse apropriadamente vestida para ela. Coisa que não estava.

(...) foda-se, foda-me, sentiu de vontade de perder a linha, o novelo, de perder um tapete voador inteiro para esquecer aquela merda. Um, dois tragos mais tarde e deu adieu adieu para a hippie chapada. Decidiu partir pra sempre: hasta la vista, baby, era isso. Precisava encontrar o Sentido da Vida, contado com bonequinhos de Playmobil, trilha sonora by Wander Wildner e o caralho. Entrou no bar no melhor estilo faroeste e mirou sua primeira vítima à moda Robocop, tu tu tu, macho, tu tu tu, 28, tu tu tu, no balcão, o coitado: cabelos desgrenhados, olhar de louco e um enorme cartaz que dizia CHIFRADO, basicamente. Mas negou colo e fumo, o puto. Não gostava da fruta.

- Viado do tipo não-mulher? Mesmo?
- Ha, ha. É, er, desconfio que sim.
- Nem aos domingos?

Sentiu vontade de mandar enfiar a porra do cartaz num lugar onde o sol não bate mas refreou, papo manso. Conversaram a noite toda, se deram bem. Decidiram fazer um fedelho (dividiriam meio-a-meio) na noite seguinte e o primeiro choro seria o código para o ataque das Panteras. Hoje ele se chama Armandinho, aquele babaca. A cara do pai.

Wednesday, March 15, 2006

Uma nação contra Hitler

Leitura dinâmica, fazendo favor. O texto é longo e a paciência é curta. Mais do mesmo aqui.

2006 foi um ano politicamente correto para a Academia. Uma mulher contra Hitler, o strudel alemão que disputou o Oscar de melhor filme estrangeiro contra o vencedor Tsotsi e o supramencionado Paradise now, foi só um dos vários nomes da noite que vestiram a camisa política nos corredores do Teatro Kodak. De Clooney a Clooney, com o regular Syriana e o ótimo Boa noite e boa sorte, ao (pálido) debate racial em Crash e à bandeira levantada do orgulho gay em Capote e Brokeback Mountain, o clima em geral era favorável à débâcle do festival de ortodoxia usualmente oferecido pelo então conservador júri da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Pois quanto à amazing disgrace que tematizou a politizada cerimônia desse ano, o longa-metragem de Marc Rothemund se encaixa impecavelmente no perfil. A partir dos cinco últimos dias da vida de Sophie Scholl (Julie Jentsch), uma jovem alemã que foi presa, condenada e julgada à morte junto ao irmão e um amigo durante o breve período por sua participação em um movimento de resistência ao Terceiro Reich, o diretor traz de volta às telas toda a amargura de um país que até hoje luta para fazer as pazes com, ou melhor, pelo seu passado.

Frente de oposição formada por estudantes em plena II Guerra Mundial, o Weisse Rose – ou Rosa Branca – sucumbiu às garras da águia nazista com o episódio o qual o filme se propõe a (re)contar, em que os irmãos Scholl são apreendidos na Universidade de Munique após espalharem por suas instalações cartas que questionavam “a brilhante estratégia de nosso führer” em persistir numa guerra cujo final da estória, predito por capítulos sangrentos como Stalingrado, era a derrota iminente. Jogados 1943 – ano em que a sorte do conflito começou a contornar em prol dos Aliados -, e à luz da história já revista, a avaliação dos jovens parece óbvia. O problema é que era mesmo. O que ainda assim, como bem se sabe, não impediu, às custas de milhões de vidas – de ambos os lados -, que o Terceiro Reich só pontuasse o final dessa guerra dois anos mais tarde, com uma bala para Hitler e uma segunda derrota em menos de trinta anos para a Alemanha.

A questão de Rothemund, no entanto, parece estar mais no presente do que no passado. Com a nuvem do trauma nacional-socialista dissipando-se pouco a pouco com o passar dos anos, volta e meia uma nova leva de produções na cinematografia mundial chega, com direito a choque elétrico e o caralho, para enfim apertar a mão que balançou o berço nazista da Europa de meados do século XX. Uma mulher contra Hitler, nesse sentido, é mais uma peça de expiação da culpa por parte da juventude contemporânea alemã.

Com passaporte em mãos, o desejo é uno: sair por fim e de uma vez por todas do purgatório o qual a velha guarda alemã, o vovô Fritz, toda uma nação hipnotizada pela oratória fascista de Hitler reservou às futuras gerações para uma estada forçada. Com um peso do tamanho do holocausto para escusar de seus ombros, a tarefa não é fácil. É colossal. Filmes como A queda e mesmo Os produtores, refilmagem em Broadway style de Primavera para Hitler (uma parceria clássica de Mel Brooks e Zero Mostel) parecem, contudo, dispostos a comprar essa briga. Cenas como o führer chorando como menininha ou como destaque em avenida na gay parade nacional-socialista são evidências notáveis nessa direção. Os tempos, definitivamente, estão mudando.

Enfim, nada carregado com o ar denso, prolongaaaaado que se esperaria respirar numa atmosfera tão pesada quanto a que envolve uma nação ainda despreparada a sentar-se no divã e alijar os traumas deixados pelos seus antepassados – o mesmo sangue! correndo pelas suas veias! - ao invés de ir ao confessionário penitenciar-se por um pecado que não cometou. Pois esse parece ser o pique da nova geração alemã. Seja ao retratar um Hitler humanizado n’A queda, seja ao insistir em bater na mesma tecla para escrever uma estória onde nem todas as personagens resumiram a personificação do Mal maiúsculo e que algumas, imagine!, ousaram inclusive se opôr ao regime hitlerista, a idéia em pauta não é perdoar, mas olhar para trás pela perspectiva dos vencidos, no lugar apenas daquela dos vencedores.

Assim, a ordem do dia, cada vez mais, é pôr em quarentena a mais contagiosa necessidade de autoflagelo para provar que só chora pelo leite derramado quem gosta de coalhada. É claro que os nazistas eram malvadões. Ninguém está aqui para contrariar isso, muito menos Marc Rothemund: em contrapartida ao Hitler de Bruno Ganz, que conseguia encaixar em sua agenda alguns espasmos de humanidade entre pular fogueira com Nero e o chá das cinco com o Capeta, o nazista de Uma mulher contra Hitler veste uma carapuça feita à medida exata para acentuar a vilania esperada do mau elemento que é. Mostra os dentes, dá chilique, bate os pés. Um verdadeiro show de intransigência, enfim.

O que não deixa de ser, nesse aspecto, o ponto fraco do filme. Sophie Scholl representa uma espécie de Joana D’Arc sabor chucrute, chegando a recrutar nada menos que a justiça divina para alterar o pino de rotação do Eixo do Mal. “Podem nos julgar agora, mas amanhã serão vocês a estarem no nosso lugar,” como profetiza a candidata à Miss Mártir 1943. Uma pena. Sem esse quinhão de maniqueísmo, a história só teria a ganhar.

Mas como carro-chefe da película, o mérito, ou pelo menos o mote do filme é mostrar que não, senhor, nem toda a Alemanha cruzou os braços e foi jogar bridge enquanto Hitler brincava de dominar o mundo. Hannah Arendt já disse que, muito provavelmente, estando no mesmo lugar e hora errados, qualquer ser humano consentiria com a via-crúcis nazista com a mesma naturalidade que um Hans e uma Frau o fizeram durante o Terceiro Reich. Ou seja, pensar em um gene germânico vestindo a camisa do Mal, estipulando a vocação de um povo à vilania, é simplesmente ridículo. Da mesma forma, e é aqui onde o trabalho de Marc Rothemund esbarra com sua raison d’être, trazer à tona a história do Rosa Branca é uma forma de oferecer evidências ao tribunal histórico que mesmo o “abjeto povo alemão” postou, na medida do possível e do impossível, resistência aos planos megalomaníacos de seu führer.

Se o filme começa arejando ares de thriller político, com cenas tensas onde Sophie e o irmão colocam a operação em ação numa verdadeira batalha contra o tempo, essa adrenalina inicial – de sutil parentesco hollywoodiano - logo se esvai para dar espaço a uma sempre bem vinda trama psicológica, quando Sophie é interrogada por Robert Mohr (Gerald Alexander Held), integrante da polícia de Adolf Hitler.

Mas sem duplos twists carpados mirabolantes no roteiro, que fique claro. E nem precisa. O diálogo travado entre a jovem idealista e o oficial nazista é, na verdade, e acima de tudo, um embate ideológico. E uma guerra antes de tudo travada em palavras, artilharia tão ou mais mortífera que as bombas que devastaram a Europa daqueles dias. Amparada por sólida atuação da dupla de atores, estas são indubitavelmente as melhores cenas do filme, capazes de levar qualquer espectador a desejar entrar ele mesmo na tela e sacudir Mohr pelo colarinho até que sua máscara de inflexibilidade caia película abaixo (embora a oscilação do interrogador quanto à validade do ideário nazista seja evidenciada em mais de uma parte do filme – o que não o impede, entretanto, de assegurar que o próximo passo do trio de militantes seja em direção ao corredor da morte).

Sophie Scholl, durante todo o interrogatório, é uma amazona. Mente e manipula com facilidade notável em defesa de sua causa e também para defender a identidade dos outros componentes do movimento de resistência pacífica. (O único momento em que se permite fraquejar é quando está sozinha em frente ao espelho, após tornar-se nítido que todas suas tentativas de driblar a inteligência nazista se revelaram vãs – uma das cenas mais reveladoras do filme.) No resto do tempo, sua dissimulação esculpi um caráter que, mais que uma montanha, é uma verdadeira cordilheira de gelo. Fria, inabalável, obstinada. Tudo em prol daquele tipo de paixão que só um idealista old school nutre por uma causa.

A força da personagem, todavia, deve a maior parte do crédito à atuação de sua atriz. E nesse sentido, com pouco ou nenhum tropeço, a conclusão é invariavelmente a mesma para o lado de cá da platéia: Julia Jentsch, mais conhecida pela sua participação no oba-oba juvenil de Hans Weingartner, Edukators (uma espécie de bíblia cinematográfica para a Che generation dos tempos coevos), amadureceu. Com louvor. Sua interpretação para Sophie Scholl é tão sólida quanto as convicções da personagem, tornando a fé do espectador no idealismo da jovem quase que uma obrigação.

Uma mulher contra Hitler tem suas falhas, e não são poucas. A câmera é um tanto burocrática. Os sentimentos do espectador, por ora manipulados. Não duvide ainda que alguns irão questionar se a escolha de enfocar a história de Sophie somente, ao invés dos três militantes executados naquela noite de fevereiro de 1943, pode carregar algo de apelo feminista franqueado, visto como os atos de bravura realizados por Sophie não são mais instigantes do que, por exemplo, aqueles de seu irmão. Mas não faz mal. Pesando os prós e os contras do filme, a balança é simpática à causa de Rothemund.

E se o sacrifício de Sophie Scholl foi em vão? Não a esquecer, mas deixá-la para trás junto com todo o panorama que levou à morte da militante é justamente o divórcio entre passado e presente pleiteado por uma nação que legou a mais maldita de todas as heranças. A incompatibilidade de gênios entre a atual Alemanha e aquela de Adolf Hitler é, afinal, a idéia entalada na garganta de toda uma geração.

Friday, February 24, 2006

É impressão minha

ou a Chapada dos Viadeiros leva mesmo o Carecão de Ouro pra cama esse ano? O tema até rendia, mas o filme é ruim paca. Sou mais a Tiffany ou o Dr. Ross.

Ai, ai, ai, fofo. Monta o meu que eu monto o seu, vai.

Sunday, February 19, 2006

Dois filhos de Friedricho

E dessa vez, meu amigo, amigo meu, Caretano Seboso se hospedou na casa do caralho: com o devido despeito, mas ninguém mais quer saber de filosofar em alemão. Pois uma temporada fundindo a cuca com os livros de Nitchi, o bigode mais proeminente da filosofia germênica, foi suficiente para que Hansel e Gretel, meus dois neurônios alemães, pedissem arrego e se resolvessem por ir tirar umas férias em terras blogueirais - onde sairiam à procura de formas mais simples e diretas de passar o recado deste que é um verdadeiro titã da cultura bigoduda ocidental. Aterrissados em solo tangerínico, encontraram enfim a perfeita kitschinette virtual para acomodar toda uma bookaria especializada em Philosophy for Dummies: onde os fascículos são introduzidos (mas com gentileza, rapazes, com gentileza) por um prelúdio de Cid Chateira e acompanhados por uma bela tangerinada na testa do leitor, cortesia da casa.
Quer mais? Quem comprar a coleção inteira de uma só vez ainda ganha o direito de receber em casa um devedê exclusivo da turnê de estréia de Ranço & Gretchen, a dupla sertaneja que mantêm a peteca nietzschiniana no ar com sucessos instantâneos como “Assim falou Zaccarias”, “The knights who say Ni... tchhhiii” (um espetacular show de sonoplastia garantido pela abertura em pleno palco e na hora agá de uma latinha de Leibeerniz, a única cerveja que te leva verdadeiramente ao melhor dos mundos possíveis) e, last but not least, um cover arrebatador de “Eterno Retorno”, onde o Supremo himself dá uma palhinha e enraba um garboso eu volteeeeei, voltei para ficar na estrofe final.
Porcaquiiiiii, caqui é o seu lugar também ora pois então, you! hypocrite lecteur! – mon senblable, - mon frère! Chegue-pra-lá com a cafonice da intelequituaulidade sem contudo lançar-se à deriva no mar da ignorância. Com o devido despeito, o devido despeito.

Friday, February 17, 2006

Nove canções

:: Almost Crimes – Broken Social Scene
:: Black Saint and the Sinner Lady, The – Charles Mingus
:: Candyland – Cocorosie
:: Jackie – Scott Walker
:: Limehouse Blues – Django Reinhardt
:: Sing Sing Sing – Benny Goodman
:: Suicide is Painless – Manic Street Preachers
:: Take Your Carriage and Shove It – Belle & Sebastian
:: Unza Unza Time – Emir Kusturica and the No Smoking Band

Tuesday, February 14, 2006

Dá-lhe uma, dá-lhe duas, dá-lhe vinte

"O que eu toco? Ah, eu toco muitas coisas..."

Deu n’O Grobo, dia desses. Freqüentadores assíduos da Limbolândia musical, os rapazes do Rebelde Sem Calça conseguiram entrar pela porta da frente do mundo pop depois de anos adentrando algumas portas de trás de caras e coroas do ramo. Após uma pitada de sal boliviano na sua carreira, a banda, liderada por Géraldji Thomas no Cu - também conhecido como o verdadeiro Bundinha do meio musical -, passou a incendiar os palcos mundiais com a performance bunda-leleística do hit Samba-canção Não Esconde o Refrão e já anuncia o lançamento de seu mais novo single, Tum-tchi-tum-tchi-tum-trrrr-pá, desde já caído no gosto de soletradores de todo Brasil. Para comemorar o recente suséquiço mais as duas décadas do Rebelde Sem Calça enfiando (opa, opa) o pé na jaca e na estrada, Géraldji, em entrevista para o jornal carioca, noticiou em primeira mão o lançamento das faixas O Pródigo Dá pra Vinti e A Pica dos Vinte Ânus para a segunda quinzena de fevereiro - “quando os bofes todos caem de quatro com a gripe aviária e soltam a franga no Carnaval”, explica o aspirante a rockstar. Segundo a revista Rolling With a Stone, “uma banda para ficar nos anais da história da música”. Um verdadeiro desbunde.

Sunday, February 12, 2006

Junebug me

Um filme que ninguém viu, pois então. Fiz à toa. Don't bother.

Difícil encontrar voz discordante: Junebug é indie da cabeça - coberta com os penteados minuciosamente desgrenhados – aos pés - calçados no velho all-star surrado. Em Sundance mode: on durante os 107 minutos de película e com trilha sonora assinada por um memorável trabalho da veterana Yo La Tengo (banda íntima do círculo alternativo), a première em longa-metragem do diretor Phil Morrison tem como mérito, ainda, possuir um algo-a-mais que o cheap look já carimbado do cinema independente made in USA. Uma vantagem que, no páreo final, revela-se responsável por fazer o filme disparar à dianteira como um dos mais autênticos e (portanto) melhores retratos da América como ela é dos últimos anos.
Em sintonia afinada com o roteirista Angus McLachlan e à procura dos Estados Unidos da Outra América, Morrison carrega a história para os confins mais provincianos da Carolina do Norte quando Madeleine (uma afiada Embeth Davidtz), habituée do cosmopolitan way of life da cidade grande, passa pelo teste de fogo de conhecer a família do marido, George (Alessandro Nivola), um golden boy do Sul relativamente despido da mentalidade interiorana. Uma experiência que melhor cairia como sabatina, e que não a deixará imune às queimaduras geradas pelas faíscas mais do que esperadas com a colisão de dois mundos completamente distintos.
A história abre. Logo, acompanhamos a jovem marchande, lado a lado a George - com quem casou semanas? dias? instantes? após conhecê-lo num ímpeto de paixão - percorrer a trilha caipira do país em busca de David Wark (Frank Hoyt Taylor), um artista plástico que ventila ares marginais com suas pinturas de pênis gigantes e escravos de rosto branco. (“É que eu nunca vi um negro na minha vida. Então, eu ponho neles o rosto das pessoas que mais gosto.”) Se há ironia na explicação de sua obra? Difícil dizer. Wark, à moda vanguardista, não parece dotado ou com a vontade ou com a capacidade – quiçá ambos – de se fazer claro para o mundo exterior.
Uma vez próximo à região em que cresceu, George deixa seu pensamento escapar em voz alta na forma de uma proposta: e por que não levar a esposa para apresentar ao que, anos mais tarde à sua partida, aprendera a ver como lar, amargo lar? Se Madeleine se mostra pronta a conquistar o coração da família, descobre logo, no entanto, que simpatia não é quase amor no final da contas. Recebida pela casa com uma hostilidade barely covered por uma roupagem de polidez, não demora para perceber que deverá duplicar as doses de tempo e esforço – e triplicar a de paciência – caso ainda queira lutar por um lugar cativo no coração dos pais e irmão do esposo.
Na verdade, a única pessoa a acolher Madeleine com braços abertos e sem dar segundos pensamentos é Ashley (Amy Adams), uma típica garota do interior cuja personalidade é feita a tal ponto de açúcar que o espectador – junto à jovem marchande - vê-se mais de uma vez às voltas com um par ou ímpar mental entre nutrir irritância deliberada ou simpatia irrefreável frente à doçura aspartame – e ao desespero, o que pode por vezes soar redundante - da mulher grávida de Johnny (Benjamim McKenzie), o irmão caçula. E a atuação de Amy mereceria por si só uma resenha à parte: já os primeiros minutos em tela bastam: o filme é ela.
Colecionadora de várias indicações (sendo a mais recente delas a de melhor atriz coadjuvante no Oscar, o eterno pote – ou melhor, careca – de ouro do cinema americano) e prêmios pelo papel, a jovem atriz transmite à perfeição os tiques de ingenuidade e inquietude de uma típica – e desmistificada - girl next door às portas de um mundo adulto para o qual ninguém a preparou. Madeleine, no fundo, representa a Ashley o farol de sofisticação que poderá guiá-la na reconquista de um pouco afável Johnny, comprado por uma espécie de sapo-por-príncipe, gato-por-lebre pela esposa naive.

Mas, antes de vilanizar uns personagens em prol das redenção de outros, Morrison conduz uma narrativa que não dá brecha no sentido de insistir em lembrar ao espectador que, somados erros e acertos, histórias e estórias, culpas e palavras, todos os personagens são exatamente a única cousa que lhes cabe ser: humanos. Demasiadamente humanos. Assim, ainda que a função protagonista de Embeth e a atuação hors concours de Amy garantam os holofotes a Madeleine e Ashley, nenhuma sombra passa ao largo da dupla Morrison e McLachlan: a tensão (não tão) latente entre irmãos, os encontros e desencontros de George com suas raízes sulistas, a dificuldade de comunicar-se com aqueles que ama por parte do patriarca Eugene (Scott Wilson) e o misto de medo e sentimento de inferioridade que pincelam a recepção pouco calorosa de Peg (Celia Weston) à chegada da esposa cosmopolita - uma menina tão bonita... tão inteligente! the enemy! a outra! –, a nova inquilina do coração de seu filho.
O espaço para dúvidas é curto: ainda que como fagulha, Madeleine está longe de ser a pólvora que alimenta a explosiva atmosfera de conflitos entre pais e filhos, irmãos e irmãos, amantes e amantes. No entanto, tanto a chegada desta nova personagem em cena quanto o advento de uma tragédia inesperada serão pontos cruciais para que o leite derramado, azedado, mereça algumas das lágrimas sufocadas ao longo dos anos.
E nesse sentido, Junebug é um drama familiar porém podado de melodrama, que tem como preocupação capital pontuar os caracteres de um Estados Unidos tido como por demais opaco para fazer jus ao brilho hollywoodiano. Pois seu maior valor reside precisamente aí. Ao derrapar nos emblemas do provincianismo americano sem contudo tombar naquele quinhão de esteriótipos já recorrentes ao gênero, Phil Morrison surpreende com um sensível flagrante de pedaços da vida e do sonho de alguns dos sobrinhos menos glamourosos do Tio Sam. Um filme de família, mas no melhor dos sentidos.
Tudo, ainda, sem abrir mão de um humor de PH - 10 (mas sem o ar forçado que muitas vezes impregna o estilo) e uma câmera compassiva, com alguns espasmos de nouvelle vague (sem pôr, no entanto, a originalidade em arritmia). Junebug é prova de que nem sempre é preciso ter uma Asia Argento tentando a qualquer custo fazer filmes bons que desviem do lugar-comum com estilhaços e estilhaços de recursos fílmicos a cada novo quadro dispostos a provar a autenticidade do seu trabalho. Um relato simples sobre a outra história americana contado com um tino que fala volumes pode bastar para compor uma das surpresas mais agradáveis do ano passado – uma pequena obra prima, ainda que de segundo grau.

Acidez e cinismo suficientes para justificar o label indie presentes em uma narrativa que revela mais vocação para acertos do que para erros; nada com sérios riscos de fazer bonito nas bilheterias, enfim. Pois ao flanar pela última edição do Festival do Rio sem atrair maiores atenções, longe de provocar comoção popular, o abre-alas de Phil Morrison na direção cumpre à risca o que parece ser o apelo máximo de seu seleto público – o de ser uma pérola cinematográfica que a cultura underground talvez prefira esconder dentro de sua ostra, às escondidas do mais vulgar neanderthal hollywoodiano (sempre a posto para descascar o esmalte indie que cinge a obra com sua perversa acetona comercial). Bobagem. Junebug é nocaute na certa com luva de pelica e merece um público maior do que meia sala lotada em sessão quase única de festival cinematográfico.

Sunday, February 05, 2006

Sobre meiasplvs e outras mentiras honestas

This is my lie, lay me yours

Um lindo dia para pensar em coisas menos belas e mais sujas? A fim de pegar jacaré no mar de lama da sem-blogracice nossa de todo dia? À procura de um manancial wit para regar suas madrugadas de domingo? Senhoras e senhores do meu respeitáaaaavel público, mais um, mais um, mais um sim, sinhô! Mais um post sobre o mais do mesmo como nunca se viu antes! Pois foi seguindo os preceitos de Lavoisier, a velha raposa safada que dizia que nada se cria quando tudo pode se transformar – verité absolute adotada por todo rodízio de pizza – que decidi apertar o repeat para recoroar com uma salva de bifas aquela carpintaria dos caras-de-pau also known as “causa blogueira”.

Soon-to-be (de)formada em jornalismo, não é de espantar que seja – ou esteja a caminho de ser, ainda que com um péssimo senso de direção (o narcoléptico que adormece while sleeping, o jogador que comemora o gol contra) - catedrática na arte de escrever absolutamente nada sobre relativamente tudo. Mas sou passilarga. Vou além sendo aquém. E o que é um blog, o meu, o seu, o nosso blog senão um disse-que-disse ad eternum da completa falta do que dizer? Não compreendo lhufas daquilo que estou blábeando metade do tempo. Nos outros 45 minutos do jogo, tenho uma remota idéia – acho que é sobre queijo.

Inicialmente, vim aqui para escrever sobre um Tim Burton em particular. (Re)vi, gostei, nem tanto, e daí? Sou que nem Clarice em um ponto – terminar um pensamento é gritar Fla em prado de Flu, ou seja, um evento extraordinário no sentido mais lingüisticamente correto, pé-da-letra da palavra. E entonces que me percebo com o pé fincado de onde nunca saí – do começo. Por/para que/m escrevo? Quedê a platéia (I) – com seus tomates adestrados (II) à espera da primeira gafe autoral para serem lançados nesta blogueira de vos fala? Será que sequer a (I) mereço – ou os (II) mereço em primeiro lugar? Por que cobiçar uma ola grega quando se está jogando pelo time dos troianos? Ou ganhar uma standing ovation – por algo a mais que um decote e por um público maior que uma braguilha?

Enfim, por que-que essa endless blogueblásice deveria ser lida? Go figure. Não sei se divirto ninguém a não ser meu eu oblíquo – e ele está chapado a maior parte do tempo. No entanto, sou por ora uma espécie de baronesa de Münchhausen, sempre se puxando pelos cabelos com uma mão e escrevendo – teclando, sou muderna – as tais meiasplvs e mentiras honestas com a outra. Applause. E volte sempre.

Tuesday, January 24, 2006

Say goodnight to the lady

Eu perguntei, Short or long story? e aí que ele me fitou com um par de lasers azuis e falou uma coisa, eu não entendi, Repete, ele repetiu, Enfia no cu, o que é estranho, porque todo mundo sabe que ter uma longa estória no lugar mais recôndito da anatomia humana é tão agradável quanto um pierrô cantando Tom Jones num número de sapateado tcheco, então procrastinei a parvoíce e concluí pra eu mim mesma, Short it is, então disse que estava o deixando e ele quis saber o porquê e Pois é, eu retruquei que não dava um duvideodó para o quanto meu blog é capital, é inicial, é transcendental para todos os meus três leitores, mas que essa vida não era mais pra mim, que jogasse o primeiro teclado, levantasse o mouse, piscasse um emoticon quem nunca havia parado para pensar em querer mais, em escrever uma reportagem que faria Zaratrusta emudecer, uma monografia que faria Fredo ulular, um romance que faria Derrida dar pulinhos de júbilo e satisfação, e continuei continuei continuei a ir à baila, falei que minha vontade encheria um Madison Square Garden, que ela não cabia mais no espelho de cá, que havia espichado horrores depois da puberdade, mas acho que ele achou que eu estava meio chapada porque logo em seguida me deu um tapa na bunda e torceu o canto da boca, Vem pra cama, mulher, eu fui.

Sunday, January 01, 2006

Miss Sinclair (audasciously) presents

Madame Zelda: leva seu amor achado em três dias

Salve, salve, cambada. Como todo mundo sabe (ou ao menos deveria, se não vamos ter que começar tudo de novo), quanto mais se olha, menos se vê. Logo, para que ceder ao esforço de depilar? Portanto, em 2006, meus votos são pra que todo mundo cultive menos aparência e mais essência em sua vida: todos os mizifios deveriam dar um vade retro, um cruz que me credo, um chega-pra-lá-que-te-pego-pra-capar naquilo tudo que empaca seu dia, empata sua foda, atrasa sua vida, adia a hora agá e fecha as cortinas para o verdadeiro espetáculo que é o lessing the talk ‘n’ moring the action nessa vida que é bonita, é bonita e é bonita...

É bunda-lelê em Buckingham? Backpacking no cu do mundo (ou do bofe do 304)? Quinze minutos de infâmia entoando um “ei, Godár, vai tomar no cu!” no próximo Cinturão de Cinefilia abotoado pelos filisteus-de-uma-puta da stravaganza intelequituau contra-campista? Isso! Issa! Não temeis o dedo do Senhor a cutucar sua ferida, ó infiel (mas não se esqueça de assegurar a vaselina e amolecer a manteiga nos conformes do supositório filosófico de São Tomei, o apóstolo que só acreditava no que via a sua frente e principalmente as suas costas): now that we hung the oldman, que o velhinho foi bater as chuteiras, pendurar as botas, desamarrar os cadarços, que o calendário renovou e a esperança se enfiou no buraco negro novinho em trolha do medo, não se contente com pouco: pra que pedir um gole se você pode ter uma garrafa, uma adega, um vinheiro inteiro na Califuckórnia só pra chamar de seu?

Por isso, no ano novo que nos espera, take your youth and shove up the ass dessa gente que quer vestidos bonitos, champanha francesa, metáforas a granel. Nesse dois-mil-e-seis, não tenha medo de ser ha-ha sem graça, sem sal, sem paciência pra tudo aquilo que te dite a cartilha, que repita o modelito, que faça bonito sem fazer feio também. Chères e chéries, sejamos realistas: refaçamos o impossível. Go, baby, go, go. Porque lá no fundo real life é que nem o perfil da Barbra, não dá pra embonecar com maquiagem: melhor assumir a nareba e digerir o luxo e o lixo numa galgada só, sem purpurinar ou reciclar coisa alguma, porra nenhuma.

Sunday, December 11, 2005

So let your fists do the talking

Meu amigo, ser fudido é uma arte a qual muitos poucos dominam. Porque, merda por merda, qualquer babaca com um maçarico, uma fatia de queijo e uma lycra rosa é capaz de fazer. Ser fudido, no entanto, é uma coisa completamente diferente. Quase cósmica. Quiçá mágica. Acima de tudo – cármica. Para começo de conversa, ser um deles requer preparação física e sobretudo mental, de modo que esperar que o Pior dê as caras pelo menos sete vezes na semana se torne uma raison d’être tão festejada quanto dia de botox nos lábios da Angelina Jolie. Ser fudido é deixar de nutrir a esperança de que, em um dia festivo e alegrinho, quando alguém lá de cima ou cá de baixo te der um tapinha nas costas como se hoje fosse seu dia de sorte, seu canalha!, socos no estômago não se transformem em úlcera anal e as portas da esperança te levem a um lugar mais agradável que aquele banheiro sujo do motel mais chinfrim da beira de estrada. Carajo, Bandini. Esquece essa porra de primavera. 2005 foi um ano ruim. O ano que vem provavelmente também o será. Se der sorte, nada muda. A merda continua. Caso contrário, ela atinge o ventilador, metaforiza sua vida, literaliza seu destino, mancha tua lapela e cobra a conta da lavanderia. Meu amigo, ser fudido é uma escola que toma tempo para ser diplomada. É levar nas coxas e nas fuças uma vida em total descompasso com a sua vontade e compreender que, acima de tudo, se fuder não é para todos, mas é para sempre. And then, wham! É dar dó e marcha ré para suportar o mifafá que entoa o cântico desse artista de tempos coevos, um ser fadado a estancar como least but not last até que o raio o parta, a morte os separe e a história se repita (mas só quando ninguém estiver prestando atenção). A coisa consiste em desenvolver cujones (ou textículos, para os lixeratos) para se fuder com classe, com estilo, com ginga. Todo mundo pode ser um dos nossos, mas ninguém pode deixar de o ser. Porque se fuder é se fuder, mas ser fudido, meus caros, ser fudido é definitivamente outra coisa.

Saturday, November 19, 2005

Eu acho que é isso que eles chamam de blues

Aprendi muito com quem não sabia nada. Mais ainda com quem conhecia porra nenhuma. O filme ainda nem começou, os óculos-quadrados-de-armação-preta tomam aos poucos o contra-campo e algumas moçoilas metidas em rouptichas dentro do fora da moda discutem em godardês um Trufô sabor nouvelle-vague. Por que algumas pessoas preenchem o requisito de supermaravilhosas, enquanto outras você tem vontade de acaçapar no bolso esquerdo da calça de strecht de J-Lo pruma partida de dança das cadeiras?

Adestro a pulga atrás da orelha e me volto pra tela. No pontapé do começo: é francês e vai mudar a minha vida. No mesmo instante capto com o rabo do olho um garoto magrinho e inquieto, com ares de quem boghobou três listras para o seu casaco-espetáculo, e rimos à beça, talvez por perceber que a vida não tem sentido se você for a décima-quinta linha de uma biografia da Paris Hilton, mas principalmente ao descobrir que ainda mais improcedente, for the average man, seria dividir sua kitschnette com ecce homo tão high-profile na statusfera da boiolindiece cultural do Homo cinefilus (A Tangerina, in: Hang the writer, 2005, dadá).

Masscult? Indústria Cultural? Audiência infantilizada? Cultura de pastiche? Adorno de touquinha entonando aaaaaaaau bái mái céeelfff? Nem sombra, nem dúvida. Toda a ação se passa às favas com qualquer qüiproquó popular que não calhe de virar o darling da vez dessa inteligentzia de cabelo meticulosamente desgrenhado e cérebro mais ainda. Ou seja: explico. Porque é claro que todo homem se comporta de acordo com o que é esperado dele. Existem pessoas dotadas com a capacidade ímpar de chacoalhar ‘e’ rolar com uma leitura de Horkheimer e pular carniça ao mesmo tempo. Outras, por sua vez, permanecem condenadas a ter uma vida sexual.

Lá no fundo da caixola, a ponderação bate e fica pra jantar. Ainda que a contra-gosto, aceito a convidada e troco a magia a dois, o menáge a três e o diabo a quatro do cinéma de Godard e cia. pelo charme discret de la indieoisie esparramada do lado de cá da tela. Pois sim. Alguém deveria fazer uma religião para ela. Criar modalidade olímpica. Deduzir do imposto de renda. Sim, bâibe! She’s trying too hard. Quase engana com o suspensório do vovô, os sapatos Karl Marx e essa manha trendy, cult, unique, cool, marginal, hype, supermaravilhosa que nem te conto.

Nunca levo um intelectual a sério. O problema é que eles se levam. Que joguem a primeira pedra, a lenha, os buttons, o uísque sem gelo, o sal, a calça xadrex pro lado de lá e cabelos ao vento rebentando no frug da pseudo-intelectualidade. Que digam em setecentas laudas o que poderia ter sido dito em uma sílaba sem ponto-e-vírgula com exclamação – sem deixar faltar chá. Sob a ameaça das bofetadas da metalinguagem, a autora consente: era o fim do mundo como nós o conhecíamos. Quem sabe, cala. Quem não sabe, dá aula. Quem não sabe dar aula, cria um blógui. Ah, ecce homo!

Friday, October 28, 2005

Assim falou Zaccarias

Eram jogados 1987 e calhou de nascer (terceira) pessoa (do) singular . Para se largar na náite à procura de chão chão chão em qualquer programa de indie que topasse na sua frente, com duas pedras de gelo para acompanhar, por favor. À garota! desempedida e todas as vezes que uma xícara derrubou café na sua vida. Que tal: jornalismo com vírg,ulas, all-star surrado – pretû, de cano alto -, chorar pitangas, carreira empacotada, blues de domingo, torradeiras e aspargos, cabriolas e olhos de ressaca e de decalque e – ela era - algo. Assim assim. Um plágio. Um atentado ao pudor. Metáfora gastronômica com uma pitada de inconstância e duas doses de paradoxo para falartãorápido mas baixinho – psiu, ei! E ele disse: “Tira essa blusa, mocinha”, e então: “Tira essa blusa e vem curtir esse tal de róquenrôu!”

Quer saber?

Frankly, my dear, I don’t give a damn.

Wednesday, August 31, 2005

O que Allen diria a Virginia, livro I: se os dentistas fossem músicos

Caro G.,

Enfim, livre! As aulas acabaram e posso finalmente voltar a me dedicar à música. Você acredita que o meu professor de periodontia odontológica me reprovou só porque confundi a arcada inferior do Sr. Leônidas com a capa do novo CD do ...Trail of Dead? Ele é tão quadrado e burguês que às vezes me dá vontade de invadir sua casa e trocar todos os quadros de lugar! Estou certo que ele não reconheceria arte contemporânea nem se ela bochechasse na sua cara. Ah, meu caro F.! Estou cada vez mais desconfiado que o verdadeiro espírito artístico é privilégio de poucos – caso contrário, estou certo que meu paciente não teria se mostrado tão obtuso à idéia de extrair seus molares para pô-los como reticências no encarte do próximo disco. Mas que gentinha mais desprezível, e que mania irritante de usar sapatos! Evidente que, depois desse infeliz episódio, tive que ligar para mamãe e pedir que enviasse mais dinheiro, de modo que a Escova de Dente de Ouro pôde continuar os ensaios no estúdio sem que fosse preciso que eu chantageasse o estudante kantiano do sexto período sobre seus hábitos de sair por aí mexendo no imperativo categórico dos outros sem usar agulhas descartáveis – o que só não seria incômodo para um paciente que tivesse sido anestesiado com doses maciças de leitura frankfurtiana. Nossa primeira faixa, Canal no Panamá, já está em fase de produção e contará com a participação do Dr. L., o melhor dentista da região, que acionará seu motorzinho toda vez que nosso vocalista fingir dor de barriga no refrão. Se ao menos papai estivesse vivo, tenho certeza que ele sentiria muito orgulho de mim – e deixaria de fingir que não me conhece nas festas de família. Ah, Hegel.

F.

Wednesday, July 13, 2005

Ela é uma loura notável: boxa, dança, pula, rema


"Perca peso e ganhe um olho roxo. Pergunte-me como."